terça-feira, 20 de outubro de 2009

Aniversário

Abro hoje os olhos. Hoje, porque hoje sopro as velas. Sopro-as porque faz anos que se apagou o sol e, hoje, não quero qualquer tipo de luz a cegar-me.
Hoje sopro as velas e peço um desejo mudo que repito três vezes. Três. Não mais e não menos. Fico a ver o fumo do meu pensamento triste a envolver-se no fumo da vela apagada, dançando no ar, rumo ao esquecimento.
Sopro as velas. Olhar ausente, vazio. O olhar de quem já não espera coisa alguma. Como se o mundo fosse uma floresta de ciprestes secos e nela fosse sempre noite. Uma noite onde os pássaros já não podem voar.
É essa a minha idade. Eternamente.
Sopro as velas num sopro sem ar. O sopro da saudade misturado no da distância. Um sopro de contentamento, velado pela dor.
Aplaudem. Todos os meus fantasmas. E sorriem-me. Sorriem-me no meu aniversário, assim que sopro as velas e me deixo cair novamente na minha poltrona de sofrimento.
Sopro as velas no aniversário da minha morte. Os fantasmas deixam-me só por momentos. O relógio bate as eternas badaladas e eu fecho os olhos.
Parabéns.

Marina Ferraz

1 comentário:

Silvéria Miranda disse...

Quanto ao texto: lindo como sempre!

Quanto à história, eu própria já te disse que há outras para serem vividas e depois contadas. E é tão melhor contar finais felizes, contar anos felizes!