segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Armadilha

Debati-me. Debati-me tanto que os meus pulsos ficaram feridos e os meus joelhos rasgaram e começaram a sangrar. Debati-me por horas, por dias, por semanas. Mas, então, a minha alma deixou de sentir. Doía-me o corpo e a incerteza. Doía-me o vazio que veio substituir esse grito constante da minha alma. E parei.
Parei, como um animal, numa armadilha, que aceita, em plena consciência ou por mero instinto, que o caminho a seguir é a morte. E tive tempo para lutar, tempo para negar, tempo para deprimir e tempo para aceitar… acabou.
Debati-me por horas, tentando alcançar aquele sonho que sempre se exibiu exoticamente mesmo à distância de um toque. Mas o sonho estava um milímetro longe demais e, por um milímetro, não pude agarrá-lo e obrigá-lo a libertar-me das amarras frias e dolorosas que me mantinham cativa de certezas que não tinha e de um futuro que eu não queria para mim.
Em tempos, acusaram-me de viver na escravidão do meu passado, como se ele pudesse fazer mais do libertar memórias, como se pudesse gerir a minha forma de viver. E foi com essas palavras que caminhei sempre, porque me cegaram com elas. Foram palavras insensatas, de quem não sabia que era muito mais fácil eu ser escravizada por esse futuro que se aproxima lenta e demoradamente, abraçando-me com a força inevitável de não me deixar escapar.
Sinto-me escrava do abismo. Como se as minhas correntes me arrastassem na sua direcção, afastando-me, passo a passo, de tudo o que sonhei para mim.
E choro. Antes debati-me e agora choro. Tenho de chorar. Tenho de chorar pelos passos que dei, rumo a esse abismo sem esperança. O abismo no qual acabarei por mergulhar nos anos de todos os sonhos que deixei, de todas as pessoas que não esqueci e de toda uma vida que não tive.

Marina Ferraz
*imagem retirada da Internet

1 comentário:

José Raposo disse...

Não vives nem vivest na escravidão do passado...Vivias na esperança do futuro, por mais que te dissem, e tu pudesses saber, que ela podia não estar lá;)