terça-feira, 6 de março de 2012

Toque cigano


Estendo-te a mão aberta. A mão aberta e vazia de tudo. Despojada de tanto quanto se pode despojar um ser sem vida. Despojada das certezas. Despida das vontades. Vazia. Vazia como o meu mundo. Estendo-te a mão.
Estendo-ta na esperança de que possas olhar para ela e ler nas suas linhas incertas um futuro que não sei ter. Estendo-ta para que me adivinhes a sorte. Estendo-ta para que, num segundo de efemeridade, possas aliviar-me o espírito e dizer que há algo em mim que vai sobreviver à morte do meu coração e ao negrume da minha alma.
Agarra-me a mão nas tuas. Deixa o teu toque cigano sentir a minha pele. Deixa o teu olhar pagão percorrer as linhas desta mão vazia. Deixa-te saber a sina de uma escrava do destino. Deixa-te saber a sorte de uma meretriz que se verga à vontade fútil de um coração louco.
Na ancestralidade aprendida pelo teu olhar, deixa-te ver o que os outros não vêem. Saber o que os outros não sabem. Conhecer o que é negado a tantos quantos desconhecem o poder de um olhar ou de uma linha vincada na pele.
Agarra esta mão que te estendo. E, por favor, olha para as linhas insensatas que a preenchem. Olha para elas com esse teu olhar negro e cheio de esperança. Olha para elas até as saberes de cor. Olha para elas com o olhar de quem acredita que o mundo pode ser feito de coisas que as outras pessoas ignoram .
Agarra a minha mão nas tuas mãos trigueiras. Diz-me o que está por devir. Diz-me se há no mundo lugar para alguém que já perdeu tudo. Se o mundo se abre para quem perdeu até a vontade de viver. Diz-me o que não me dizem os livros e as explicações. Diz-me o que não dizem as pessoas que não crêem no destino.
Estendo-te a mão. Estendo-ta na esperança de que não a vejas vazia. Estendo-ta no desejo de que não a vejas como eu. Por favor... lê os traços insensatos desta mão. Adivinha-me o caminho ou o desfiladeiro. Adivinha-me a fortuna ou a morte. Adivinha. Seja o que for.
Estendo-te a minha mão vazia. Entrego o meu destino ao teu toque cigano. Possa o teu olhar ver o que não vejo. Possam as tuas palavras dar-me paz... A paz da esperança ou a paz do fim...


Marina Ferraz

* Imagem retirada da Internet

2 comentários:

Tânia disse...

‎"Possam as tuas palavras dar-me paz... A paz da esperança ou a paz do fim..."

Palavras... podem fazer tanto e tão pouco por nós... mas precisamos sempre delas...
As tuas trazem-me muitas emoções... Gosto... :)

Anónimo disse...

Lindo!!!!!!