terça-feira, 25 de março de 2014

Casa da Sorte


Toquei o azar às portas da casa da sorte. Mas as pessoas não ouviram. Passaram por aí, como passa o tempo. Passando. Na inevitabilidade infalível de quem pensa que não existe outra forma de passar. Com a indiferença de olhos postos no asfalto ou nas pedras sujas do chão.
Toquei. Toquei mas a música não encheu as ruas, demasiado atulhadas de coisa nenhuma. Por isso, embora tocasse, não tocava. Não toquei ninguém nem coisa alguma. Não havia espaço nas ruas para outro som que não o da apatia.
Toquei o azar às portas da casa da sorte. Alguns passaram. Alguns entraram. Alguns chocalharam nos bolsos uma pobreza igual à minha. Alguns iam vazios. Alguns iam cheios de nada. Outros cheios de si. Mas ninguém me ouviu. Eu era da cor das paredes, da cor do chão. E, embora tocasse, eu soava a nada porque ninguém parava para ouvir. Para me ouvir. Para se ouvir. As pessoas simplesmente passavam. Assim... passando. Haverá outra forma?
Toquei. E, embora os olhares de soslaio optasse por ser cegos, eu continuei a tocar. Chamaram-me mendigo, pedinte. Ouvi o rumor: "devia arranjar trabalho". Toquei. Apesar dos rumores e da indiferença e da surdez. Toquei para as pedras da calçada. Chamei-lhes irmãs. Toquei para elas porque apenas elas me conheciam a música e o destino de não ser mais do que pisado pela multidão alheia.
Toquei. Toquei o azar às portas da casa da sorte. As mãos dormentes do frio. A alma dormente da indiferença. As pessoas dormentes, não sei porquê. E, nas ruas cheias, pessoas vazias passavam, deixando-me aos pés o estojo vazio e o coração quebrado.
Olhando para as pessoas, senti o ímpeto de tocar para sempre. De tocar até que me ouvissem. De ficar ali até os dedos congelarem, entre sopros e o meu olhar vítreo virar pedra, calcificar.
E toquei. Toquei a dor e a amargura e o desespero nas ruas onde só passava, passando, quem não podia ouvir ou entender o que não ouvia. Toquei enquanto a música ecoava no  vazio de tanta gente. Toquei enquanto a rua se enchia de vazio e se esvaziava de novo.
Era noite. Toquei para as estrelas. Toquei para a lua. Toquei o azar às portas da casa da sorte.
As ruas vazias, onde pessoas vazias já não estavam. O estojo vazio. O estômago vazio. O sonho vazio de mim.
Arrumei as minhas coisas. Arrumei o sonho. Arrumei a esperança. Arrumei as gentes que povoavam as ruas. Tinha tocado o azar às portas da casa da sorte.
De meu, levava agora a música. E o estojo vazio, os bolsos vazios, o estômago vazio. Mas sorri. Não tenho a alma vazia, nem os olhos cegos, nem vou como o tempo, andando. Há estrelas no alto. E elas ouvem até quem toca o azar às portas da casa da sorte.

Marina Ferraz

4 comentários:

Jennyfer Aguillar disse...

Amei,é perfeito e tem tanta verdade de hoje,as pessoas vazias,cegas e surdas. Que somente passam pela vida.
Parabéns querida.
Beijinhos Jenny ♥♥♥♥

Roberto de Avillez disse...

Bela prosa poética. Parabéns.

MIDTCLA disse...

A ´PRESA E DO DIA FAZ AS ´PESSOAS A FICAREM INDIFERENTES A CUJTURA E AS ARTES MENOSPRESANDO O QUE E RARO O DOM... EXPOSTO TAO LINDO EM TEU RECITAL

CLAUDIA DO CANTO disse...

Amo esta arte expressante que embriaga e faz renascer a arte muitas vezes esquecida encutida a nossa alma,UNS POETAS QUE AS VEZES O MUNDO PENSA JA MORREU .MAS ESTA ESCONDIDO TENTANDO DELINEAR DAS NOVAS ARTES...