terça-feira, 21 de abril de 2015

Na avenida dos sorrisos vendidos


Aviso: O texto que se segue contém linguagem forte que pode ser considerada imprópria e/ou obscena.

Ela tinha feito do corpo um instrumento de trabalho. Aprendera a arte do prazer. Não de uma forma subtil e romântica. Não com floreados e delicadezas maiores que o tempo. Não! Sem eufemismos. Ela aprendera que podia viver apenas usando o corpo nu, dando-o, vendendo-o. Aprendera que isso lhe pagava as contas e os vícios. Que lhe saciava as necessidades básicas e os caprichos. Ela tinha feito do corpo um instrumento de trabalho. E sabia o nome que davam a quem, como ela, batia as esquinas dos bairros. Não se importava.
Há uns tempos, tinha ouvido da boca de uma mulher igual a si: "é porque a vida a isto me obriga". Revirara os olhos e erguera o dedo do meio, enquanto virava costas e se afastava das demonstrações de auto-comiseração. A vida não obrigava ninguém a fazer coisa nenhuma. Muito menos abria uma porta com a indicação "fode ou fode-te". Não era isso que acontecia. As pessoas tinham uma escolha. Faziam a escolha. Tudo certo. Já era tempo de deixar as justificações hediondas sobre como a vida má e o mundo cruel tinham sido estrada para a degradação. "Se todas as pessoas que têm vidas tristes se prostituíssem, estávamos desempregadas", costumava atirar, por entre as conversas. Claro que ninguém gostava de ouvir essas teorias. As pessoas dizem que o livre arbítrio é a melhor coisa dos seres humanos. Mas não naquele meio. Era muito mais fácil achar que se era puta por falta de opção do que admitir que se escolhera sê-lo.
Ela não tinha paciência para limpeza de discurso e justificações vazias. Nem com colegas, nem com clientes. Se calhava um perguntar-lhe, como tantas vezes acontecia, o que a tinha levado àquele caminho, ela respondia sempre o mesmo: "Querido, estás aqui para falar ou para foder?". Eles estavam lá para foder. Ela também. Era uma mera troca de bens de consumo, baseada no corpo. O corpo era o seu instrumento de trabalho. E sim! Dava trabalho! Depilação, ginásio, dieta. Uma constante preocupação. Ser puta era como ser modelo mas com ainda menos roupa e sem edição de imagem.
Não se queixava. Fora escolha sua. Até ao limiar do que loucamente podia ser anunciado. Fora escolha sua. Poderiam, um dia, inscrever isso mesmo na sua lápide: fora escolha sua. Não guardava, sobre a escolha, arrependimentos nem mágoas. Todas as pessoas escolhiam alguma coisa. Ela escolhera duas: a prostituição e a honestidade. E eram duas escolhas válidas, embora parecessem anular-se.
Ela tinha feito do corpo um instrumento de trabalho. Não pensava nele como parte da alma. Não pensava nele como recipiente da alma. Não pensava que tivesse alma. Mas acreditava que, se a tivesse, a sua pureza não seria medida pelo número de corpos que tocavam o seu nem pelo número de leitos onde se estendia e se dedicava ao prazer. Se houvesse alma, ela devia certamente ser medida pelo resto.
As pessoas confundiam, com frequência, o verbo ser e o fazer. Havia uma diferença grande entre ser bom e fazer o bem, tal como havia diferença entre ser puta e viver da prostituição. Mas ela sabia que discutir normas e conceitos sociais era equivalente a tentar prender as ondas na costa. Completamente inútil e estupidamente ilógico. Não as discutindo, optava por pensar nelas. E tinha muitas perguntas onde toda a gente parecia ter respostas. O que é que tornava uma escolha errada? Quando é que a sociedade tinha desprezado os próprios pilares da vida? Onde se guardava a lógica dos tempos que tinham determinado o que era moralmente aceitável e o que era incorrecto?
A noite passava nesses pensamentos. Passava neles, de corrida, até rua se transformar em motéis. E motéis se transformarem em rua. E a manhã vir romper o horizonte para lhe dizer "bom dia".
Na manhã que começava a nascer, iniciava-se o caminho apático das gentes na direcção dos trabalhos. Taciturnas e descontentes, passavam de olhos no chão. Iam sem vontade e sem outro intento que não o da obrigação. Notou que ninguém sorria. "Será que as pessoas têm medo de sorrir?", perguntou-se, enquanto largava o canto e começava o caminho para casa.
Tinha os pés cansados da noite. Mas sorria. E, nas ruas onde passou, entre passeios atolados de pessoas, pessoas atoladas de problemas, problemas atolados de preconceito, compreendeu que era a única a sorrir. "Será que as pessoas têm medo de sorrir?", perguntou-se novamente. Mas, depois, ocorreu-lhe que talvez não fosse medo. Talvez as pessoas vendessem os sorrisos. Talvez fosse esse o preço da sobrevivência. E teve pena delas. Cada uma daquelas pessoas, a vender-se assim, despindo-se de felicidade a troco de dinheiro, de estatuto, de reconhecimento. Sabia quem era. Sabia o que fazia. Tinha feito do corpo um instrumento de trabalho. Mas teve verdadeiramente pena das pessoas que passavam sem sorrir. Teve pena da forma como vendiam os sorrisos a troco de migalhas. Ela prostituía-se... mas não tanto e não por tão pouco.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

1 comentário:

Edvaldo.P.Campos disse...

Belíssimo texto. havia escrito sobre o tema mês passado.

AMANTE AD HOC

Adota para si as recusas alheias
Toma com amor ocultados prantos.
Leito fogoso de emaranhadas teias
Reduto vivo de prazerosos encantos.

Amiúde, geme, põe corpos incendiados
Não só homens, mas cansados santos
Sem pecados, remorsos vigiados
Cobre todos de amor em seus mantos.

Maltratam-na, rotulando-a: - sua puta!
Sem saber quantos e quantos casamentos
Salvou com seu amor essa moça astuta

Quanta insatisfação supriu sua conduta
Quando seu colo agasalha mil lamentos
E só – após – chora a moça substituta...