terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

As leis da física




O meu pai ensinou-me. Por isso, provavelmente, não é culpa de ninguém. Senão minha. Que não aprendi. O mundo é física. Tudo é física. Tudo se rege pelas leis inevitáveis e incontornáveis. Dela. Da física. Não é culpa de ninguém. Senão minha. Que não aprendi.



Pedi-te. Tenho este amor. Sou toda amor. E o amor que sou e tenho é todo teu. Por isso, para que ele não me pese. Para que ele não deixe marcas vincadas na pele da minha alma. Por favor. Guarda-o. Coloca-o nesse coração dourado.

Pedi-te. E anuíste.

O sentido das coisas que não se vêem reside nas coisas que se sentem. Vi-te, atabalhoadamente, atirar o meu amor para dentro do peito. E vi sempre que ele te vertia. E notei-te o esforço intemporal para colocares dentro de ti os seus tentáculos de sonho.

Não notaste o peso de imediato. Primeiro, carregares o meu amor, meio por dentro, meio de arrasto, foi simples. Sorrias. Mas depressa começaste a perceber que o meu amor, dentro e fora de ti, era uma espécie de sombra. E escureceu-te o olhar. Escureceram-te as mãos. Essas, com as quais tentavas agarrar os excessos do amor e colocá-lo de volta no peito.

Eu pedia. Tenho este amor. Sou toda amor. E o amor que tenho e sou é todo teu. E tu tentavas, desesperado, colocar dentro de ti esse pedaço inusitado de mim. Também tu gostavas de acreditar que ele era teu.

O amor pesa. Desculpa. A diferença subtil entre leveza e leviandade tomou forma nos espaços tentaculares do meu amor. Talvez ele se tenha agarrado à tua pele. Tolhendo-te os movimentos. Prendendo-te. O meu amor, esse opressor, não queria impedir-te. Queria apenas evitar cair no chão como, naquele tempo, tinham já caído tantas e tantas promessas.

És a minha pessoa. E tu a minha. Para sempre. Sempre e para sempre. Porque nunca deixei de amar ninguém. Nem eu.

Foste arrancando os ramos secos, penetrantes, desse amor que se agarrava a ti para não cair, criando raízes dentro do teu peito e proliferando, qual erva silvestre, pelo resto do teu sistema, pela tua pele, pela sala que te acolhia.

E eu, que te abraçava, sentia o amor. E pensava que ele era teu. Não imaginava que abraçasse, nos teus braços, o meu amor por ti.

Mas tu percebeste. E libertaste-te do amor. Do meu amor. Não é culpa de ninguém. Senão minha. Que não aprendi as leis da física.



Em tempos quis. Muito. Que guardasses o meu amor dentro do teu coração. Desculpa. Sempre fui mais de emoções do que de racionalidades. Não entendia as leis da física. Não podes. Hoje sei. Tiveste de procurar um amor mais pequeno. De o colocar nesse coração dourado. Porque o meu amor, pela sua dimensão infindável, não cabia.






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