quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Envelhecer contigo


Fotografia de Analua Zoé 


Eu quero envelhecer contigo.

Isto é o que podia dizer-te, mesmo que não deva. Mesmo que não tenha esse direito. E mesmo que o tivesse.

Fico a imaginar-te sentado, com um livro entre as mãos, algures debaixo de uma lâmpada ou em frente a uma lareira. A precisares de silêncio e de espaço para encheres o teu dia de palavras. E as palavras haviam de ondear. E eu havia de ficar encostada à lareira. A olhar para ti. A escrever poemas sobre ti. Mentalmente. Sobre a forma como o silêncio das tuas leituras mudas era uma espécie de música. Aquele tipo de música que nenhum piano e nenhum violino aprendeu a tocar.

Eu quero envelhecer contigo.

Encostar a cabeça no teu ombro, enquanto me falas da mulher que te fez um homem melhor do que o homem que te fez. Enquanto me falas da lucidez de pensamento que te inebria e de todas as conversas que, abrindo espaços de mágoa em ti, te deixaram sufocado na tua própria incapacidade de perceber o mundo.

Havia de beijar-te. Talvez já não com a loucura sôfrega de uma juventude carregada de desejo. Mas havia de beijar-te. Sobre os lábios quentes. E de passar a mão no teu rosto, olhar dentro de todo o mel dos teus olhos. E dizer-te – se não as palavras mais bonitas do mundo – ao menos aquelas que te fizessem saber que, para mim, és uma espécie de mundo melhor, onde quero existir em pleno. Monstro. Como só tu sabes que sou.

Eu quero envelhecer contigo.

Quero que, à medida que as mãos calejam dos anos de trabalho; e à medida que a flacidez toma conta da pele; e à medida que as rugas se vincam; aprendamos a ser mais bonitos. Deixando os fantasmas e as vozes lá atrás, onde nos disseram que não valíamos o chão, para descobrirmos que, afinal, valemos mais do que o céu. E não precisa de ser o céu dos outros – obsoleta e tediosamente cheios de anjos e nuvens – um céu nosso: feito de exclamações e de versos. E de estrofes rugosas e de canções que ninguém conhece.

Gostava que lesses, em voz alta, um ou outro poema meu. Só de vez em quando. E que ainda tivesses nos olhos esse brilho que faz o tempo fluir com a mais incrível das velocidades. E gostava de espreitar sobre o teu ombro, para roubar uma ou outra palavra maravilhosa, nessa tela de infinitude poética, à qual tão pouco valor dás mas da qual eu  gosto tanto.

Eu quero envelhecer contigo.

Mas não te assustes. Eu não tenho a expetativa do tempo. Simplesmente, hoje eu sei. “Envelhecer contigo” é outra coisa. Não é ficar com alguém sempre. Não é ficar com alguém para sempre. É algo que acontece quando alguém nos faz sorrir tanto, que os músculos do rosto doem. Quando alguém nos faz rir tanto que nos vinca as rugas ao lado dos olhos.

Apetece-me agradecer-te. Por me envelheceres. Por me deixares envelhecer contigo nos poucos momentos que roubamos à vida. Obrigada por me fazeres velha. Dessa maneira que vinca rugas ao lado dos faróis de um olhar que, em tempos, esteve apagado.

Eu quero envelhecer contigo.

E ainda bem que esta é a única forma como posso fazê-lo. Porque, se a vida nos desse o espaço, e nós agarrássemos os fios e tecêssemos outro tipo de história... ficariam livros por ler, silêncios por existir, eternidades por acontecer... enquanto nos perdíamos um no outro.

Sim. Ainda bem. O tempo nunca nos daria a possibilidade de envelhecer juntos. O tempo é cruel. O tempo passa tão depressa quando estou contigo que anos seriam milésimos de segundo. Antes que tivesse a possibilidade de envelhecer contigo, a morte bateria à porta.

Eu quero envelhecer contigo.

Neste segundo.



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