quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Toda a gente sabe




Toda a gente sabe que o amor nasce de noite, quando está escuro. Toda a gente sabe. O amor não é cego. Mas escolhe a noite. Para não ver, tão concretamente, naquele aproximar de dois rostos, as sombras que a luz causa. E onde o potencial da falha está escrito. E onde o fim anunciado já ondeia, fantasmagórico.

Aprendi a duvidar, na noite. Porque toda a gente sabe que o amor escolhe a escuridão. E toda a gente sabe que ele escolhe a escuridão para nos iludir. Seria bom que a lua reservasse para si as emoções e elas não entrassem pelos nasceres do sol lá fora. Mas, à luz do dia, tudo é diferente. As florestas serão, talvez, menos assustadoras. Mas o amor? O amor é muito mais aterrador quando o dia nasce.

Eu sei. Como toda a gente sabe. O amor nasce de noite, quando está escuro. O pó sobre a mobília não é falta de brio mas passagem de fada. As rachas na parede não são falta de condição mas traço no centro de frases inacabadas em nosso entorno. E as manchas no sofá não são memória de conteúdos derramados mas vias lácteas no Universo onde os corpos se entregam, juntos, a viagens espaciais. Naquele Espaço de não haver espaço entre os corpos.

E a iluminação das ruas, nessas noites onde o amor nasce, não tem lágrimas pendentes nos olhos. Fazem-se conversas que geram bateres desajustados no peito agreste. E dizemos. É possível. Não porque seja possível. Mas porque, no escuro, nos esquecemos dos meandros da impossibilidade.

Olho para ti e olhas para mim. Toda a gente sabe que o amor nasce de noite, quando está escuro. E devíamos, tu e eu, esperar pelo dia. Pelo sol. Pela racionalidade. Mas, de repente, algures, cai uma estrela. E nós não vemos estrelas cadentes porque eu olho para ti e tu olhas para mim e existe um abraço que quer dar-se.

Tu sabes. Eu sei. Devia ser só um abraço. Uma despedida. Por hoje. Um beijo pendente para outra vida, onde seja mais certo, mais atempado. Mas toda a gente sabe que o amor escolhe a escuridão. E nós somos seres noturnos, lado a lado.

O abraço parte-se. O amor nasce de noite, quando está escuro. E é errado. Mas não parece errado. Não sinto que é errado. De repente, tens um segundo para salvar a tua vida. O abraço parte-se. O beijo troca-se. A noite é menina.

Quando o sol vem, à luz do dia tudo é diferente. As florestas parecem menos assustadoras. O amor não. O amor é muito mais aterrador na claridade. Porque, mesmo nascido nas entranhas sombrias da obscuridade, quando o amor nasce é difícil de esconder e impossível de matar.






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