terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Aviso de tempestade

 

Imagem retirada do Pixabay

Enquanto lá fora acontece aquele fenómeno estranhíssimo chamado inverno e a Proteção Civil nos vai avisando que Josephs e Kristins estão de passagem pelo território português, trazendo de outras terras o seu mau feitio, eu vou driblando outras tempestades, que chegam em tempo de campanha.

 

Discursos e discursozinhos tentam mostrar-nos o mau e o péssimo, pintando-os de ouro ou carvão. O país divide-se, subitamente, entre extremistas de direita que se dizem moderados e especialistas versados sobre a constituição que se dizem democratas.

 

Aqui e ali, vão caindo apoios a conta-gotas, que acrescentam à poça já lamacenta mais um pedaço de sargaço. Posturas e posições são elogiadas ou criticadas, como se fossem espelho de uma convicção ou de uma alma. A crítica e o elogio esquecem que o mercado de influências, como o do futebol, se move maquiavelicamente por interesses que enchem contas bancárias. Quantas vezes teriam vozes um som tilintante, não fosse a digitalização da moeda? Jamais saberemos...

 

Convém não pensar nisso. Mais concretamente convém que nós – o miserável e útil povinho – não pensemos nisso. Nas trocas de valores e de promessas e de favores... Convém que o vento a 140 km/h varra do nosso pensamento qualquer réstia de bom senso, para sermos parte da horda e amiguinhos do sistema.

 

Comunicação e política focam-se na tempestade e pedem-nos, subrepticiamente, que não sejamos tempestade. Duas palmadinhas nas costas e a frase feita que convém ao momento: Não faças uma tempestade num copo de água.

Que copo? Que água?

Estamos a morrer à sede neste país à beira-mar. Mas, por falar em beira-mar... alerta vermelho de agitação marítima. Foquem nisso. Não saiam de casa. Já há ondas que cheguem. Não façam ondas, pessoas...

 

A alma dói. O ano passado já se falava em mais de 14 mil sem-abrigo em Portugal... ficamos em casa... e eles?

Entra o entretenimento para nos fazer esquecer também disto. Tomara que não falte a luz, para que a televisão se mantenha ligada e possamos acompanhar os enredos especialmente selecionados para a nossa paz mental.

 

A segunda volta das presidenciais ainda está a duas semanas. O vento vai ser pior esta noite, mas tudo passa. Mudem o vosso carro, se estiver debaixo de postes e árvores. Liguem a televisão. Desliguem a mente. Distraiam-se.

 

Não façam tempestades num copo de água. Num copo de vinho, ainda vá que não vá, porque a embriaguez anestesia. Mas num copo de água... isso não!


Marina Ferraz



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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O cubículo

 


O voto é livre e livres vamos. É esta a ideia, não é? A da liberdade. A da liberdade que levamos ao opressivo cubículo da cabine eleitoral, escondendo o rosto e pegando na caneta para exercer um direito, um dever. Agentes secretos expondo o enigmático X. As nossas ideias. Ou as ideias que nos impingem. Uma delas.

 

Ali, no cubículo, escondidos da realidade triste da vida, somos os heróis e os vilões. Talvez por isso ocultos atrás da massa opaca, para que não nos vejam os intérpretes dessas subjetividades. Ali, no cubículo, compomos versáteis narrativas de alguns segundos. Somos observados, mas só pelos candidatos. Esses olham-nos. Todos sorrisos. Atiram-nos falsa felicidade a partir dos seus quadradinhos. Sorriem como fizeram nas fotos dos seus casamentos. Forçadamente e a questionar, no seu íntimo, se não estariam melhor noutro lugar. Mas impera sorrir. Sorrisos cativam votos. X marca o lugar. Era assim com os mapas do tesouro. E eles querem ser o tesouro. Só assim podem lucrar com o tesouro.

 

Candidatos que o são e candidatos que não o são sorriem-me. Têm narrativas nos olhos. Alguns dizem que querem salazares e outros que querem um jornalismo mais manso. Alguns dizem que querem salvar o mundo. E há quem seja mais lúcido e diga que quer putas e vinho verde. Abençoados sejam os honestos, que para eles sempre haverá uma adega.

 

Ali, no cubículo, eu talvez devesse ouvir o que dizem esses caçadores de voto. Antes que lancem os cães, achando que o engodo vertido não basta. Mas envolvem-me as estruturas metálicas do verbo desdito e a caneta fala mais alto, enforcando-se no fio que a amarra. São as suas súplicas que ouço, enquanto tiranamente a sufoco com os meus dedos para que cumpra a minha vontade. Essa de oferecer o dito X a algo que se aproxima mais do sonho que eu tenho para o meu país. Essa de fazer parte do legado-dádiva que os meus avós me deram, tentando honrar-lhes a memória e seguir a minha própria voz.

 

Saio. O opressor cubículo é de liberdade e, por isso, dobrando em quatro o boletim, saio.  Saio como quem vai respirar o ar que faltava. Como se o sufoco arrastasse. A cabine de voto é uma divisão onde os tetos são de fragilidade e as margens são ansiosas.

 

O voto é livre e livres vamos. Mas até a caneta está presa por um fio. Quem é queremos enganar? O X marca o lugar do nosso enforcamento. Estamos a escolher a corda.


 Marina Ferraz



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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Útil

 

Imagem retirada do Pixabay

“Útil” é uma palavra que me irrita. Não nasci irritada com ela. Nasci como nascem os bebés, inútil e sem saber palavras, incluindo essa. Mas cresci e, com todas as ferramentas alegadamente úteis da escola, que queriam tornar-me útil para a sociedade e garantir que seria uma boa escrava ao longo das horas úteis dos dias úteis, desenvolvi um inútil rancor à palavra.

Úteis, diria a minha avó, eram os dicionários. Nestes, ensinou-me a pesquisar palavras. Útil: Que é necessário; que tem préstimo ou utilidade; proveitoso; vantajoso. Pois sim...

 

Vejamos alguns exemplos:

O dia útil é, frequentemente, aquele no qual não aproveitamos o dia para nada que nos preencha. Dias de trabalho, frequentemente em ambientes fechados, em gabinetes sem janelas, depois da hora de ponta da manhã e antes da hora de ponta da tarde.

A dica útil é, lembremos, aquele conselho não solicitado que alguém se lembrou de dar porque é sempre mais divertido metermo-nos na vida dos outros do que cuidar da nossa...

A vida útil é, frequentemente, o tempo do alegado bom funcionamento e raramente ultrapassa o tempo da garantia antes de um equipamento estourar.

 

Ou seja: não é que não seja útil, a questão é: útil para quem?

 

Ouvindo falar de voto útil, arrepio-me. Vou ao dicionário, como a minha avó me mandaria fazer, apenas para constatar que não me equivoquei quanto ao significado do termo. E lá está a confirmação:  voto: ato de votar; votação; manifestação da vontade ou opinião numa eleição ou numa assembleia; ato de escolher por meio de votação; sufrágio.

Falar de voto útil é compactuar com o sistema, com os outros, com a narrativa em vigor, com o diz-que-disse, com a dica útil, com as sondagens e com a puta que as pariu a todas. Votar útil é não votar, porque não existe a real manifestação da vontade individual, nem o ato de escolha baseado na preferência do eleitor.

 

Sempre que alguém se faz útil, está a fazer-se útil aos que fazem dos outros mera ferramenta. Degrau para o palanque, que pisam a bel-prazer. E, por isso, encaro que o voto útil seja uma espécie de vénia muito rentinha ao chão, na qual esquecemos que o direito de escolher é algo que se perde com facilidade e demasiado valioso para que dele assim se abdique.

 

Votarei em quem quero e não em quem querem que eu queira. Votarei sabendo que a possibilidade de ver numa segunda volta a pessoa em quem voto é quase irrealista. E votarei sabendo que essa fantasia só o é porque muitas pessoas querem ser úteis. Votarei em quem perde, com orgulho, mas recusando-me a ser degrau para levar ao pódio as gentes úteis que não têm feito mais do que aproveitar-se da nossa utilidade para rechearem as próprias contas e atingirem interesses pessoais.

 

Há um tipo de voto ao qual chamam voto útil. Eu chamo-lhe voto fútil. Reflexo de uma sociedade embrutecida à conta do desgaste da cultura e da educação. Pensar nisto não seria útil... seria indispensável. Logo, não interessa...

 

Não creio que este seja um texto útil... mas talvez, assim, sirva para alguma coisa!


 Marina Ferraz



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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

É a falar

 

Imagem retirada do Pixabay

É a falar que as pessoas se entendem. Isto dizia, em tom de desentendimento, uma senhora ao marido no supermercado. As prateleiras, que não falavam, olhavam para eles com os seus olhos-produto. Imaginei o que pensará uma lata de polpa de tomate quando ouve uma destas. É a falar que as pessoas se entendem.

 

 

Ando por aqui há uns meses e a validade do meu B.I. diz-me que, provavelmente, metade das pessoas no supermercado irão levar-me a dianteira. Dirão que estou processado – estou – e que sirvo só para quando não há outro mais fresco – válido. Mas, no processo, o facto é que já vi de arbusto e mão e fábrica e lata mais do que muito tomate que se acha melhor do que os outros. Vi homens discutirem com homens sobre procedimentos agrícolas. Mulheres discutindo com mulheres sobre processos de apanha. Homens discutindo com mulheres em procedimentos fabris. Mulheres argumentando com homens sobre distribuição. Enfim, homem com homem, mulher com mulher, homem com mulher, mulher com homem, gente com gente que o binarismo cansa-me até às sementes.

 Ainda que a lata diga do campo para a sua casa, o processo demora mais do que o tempo da leitura. Só isso já me serviria para dizer que a palavra é desentendimento como o desentendimento é palavra. Mesmo sem que seja verbalizada, a comunicação falha. Aqui, vejamos... campo? Que campo? De ténis? De futebol? Minado? Sim, sim, sabemos que provavelmente será agrícola... mas se foi estufa, conta como campo? E sabemos que não o foi? E eu não estou na sua casa. Estou numa prateleira de supermercado, a ouvir uma potencial dona de casa irada a falar do cabrito que o marido quer comprar em vez de borrego, usando as palavras é a falar que as pessoas se entendem com propriedade.

A comunicação é tão estável como isótopos radioativos. Ou, falando em termos mais mundanos – que ninguém precisa de entender de Física Nuclear e da Radioquímica para falar com uma lata de 800 gramas – como um castelo de cartas. As pessoas acham que dando as cartas está tudo resolvido e o jogo se faz... como se não ventasse...

 

 

Talvez a polpa de tomate pense isto. Para um produto de conserva sem sal, até o acho pouco conservador. Mas quem sou eu? Eu só ouço... e sigo em silêncio. Que assim ninguém se desentende!


Marina Ferraz



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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

2025 ou A Bicicleta Cor-de-Rosa

 

Imagem gerada por IA

Um pai caminhava com a filha. Ela, pequena e encasacada, arrastando os pés em jeito de cansaço. Ele, encolhido, dando uma mão à menina e segurando na outra a igualmente miniatural bicicleta cor-de-rosa. Subiam a ladeira. Ambos rendidos ao cansaço, sem trocarem palavra. E, ainda assim, a bicicleta seguia, rodas ao alto, testemunha do amor.

 

Esta imagem, ainda agora absorvida pelos olhos dezembrinos, trazia dentro este ano com prazo de validade iminente. Não que isso importe, se considerarmos que deviam ter-me dito, há um ano, que ele chegava cheio, mas não bom.

 

2025 foi um ano de mudanças. Em janeiro, mudava de casa, preparando-me para enfrentar o festival do caixote e a saga das encomendas e serviços. Por entre a azáfama, apercebi-me tarde demais de que estava a ignorar o incontornável: uma escassez de trabalho que podia mandar-me – e me mandou – para o patamar abaixo do lodo. Em janeiro morreu um amigo. Em fevereiro morreu um amigo. Debaixo do lodo e quando dele tomei fôlego, na enxurrada de imprevistos e expetativas defraudadas, vesti-me de Abril. Decisão sóbria de quem, não podendo estar como quer, pode ao menos ser fiel à sua essência. Em abril morreu um amigo. Cansada, como a menina encasacada, não tive quem me pegasse ao colo. Mas tive quem me aliviasse do peso da bicicleta e me desse a mão. Amigos – felizmente vivos – que leiloaram a sua arte para me ajudar. Amigos – felizmente vivos – que me quiseram na mesa dos seus aniversários, mesmo sem que eu pudesse pagar a refeição. Pessoas – felizmente vivas – que ofereceram a sua ajuda, que partilharam os seus conhecimentos, que me pagaram contas e encheram a despensa.

 

Quem me conhece sabe que gosto de levar a minha própria bicicleta e que sou intolerante a que me peguem. Mas, quando 2025 decidiu reinar no meu reino, eu larguei o cetro do controlo. Talvez seja essa a mensagem deste ano. Aprender a largar o controlo, de vez em quando, e assistir a Abril nos outros, ao modo como avançam, em revolução pacífica, com as armas em punho, mas dando-me Liberdade.

 

O ano seguiu, melhorou. Despedi-me, com carinho, dos passos dobrados na areia e ganhei, assim, a inesperada felicidade da amizade mais pura. Depois – porque é para amar que aqui vimos – resignei-me ao sentimento mais estável dos estáveis sentimentos. Ali, nesse mar de sentir simplesmente o que sinto, tive ainda o alento do sonho e da ilusão. Sonho e ilusão muito breves, é verdade, mas tão bonitos... tão bonitos, que a recordação me faz feliz.

 

Chorei. Gastei os olhos de chorar. Fossem os olhos de pedra e estariam erodidos. Mas na almofada inundada de mim, descobri que a humidade faz crescer sementes. As sementes viraram conto e poema. Uma bênção que, por mais que a humanizem, não é deste mundo. Os brotos enraizados ali estão, à minha espera. Mas, sem tempo para chorar, descobri, no final deste ano, o cansaço antigo de ininterrupta labuta. E chego aos últimos dias do ano como vim ao mundo: com um grito preso na garganta, exausta e pronta para enfrentar o que vier.

 

Obrigada a todos os que me viram desabar e, em vez de me levarem ao colo, agarraram o meu peso – essa bicicleta-nada-cor-de-rosa – e me deram a mão.

Obrigada ao Amor, que me leva, mesmo que em silêncio, de sobrevivência em sobrevivência.

E obrigada a Abril. Porque me é. Porque o sou.

 

2025 foi o ano de largar a bicicleta e dar a mão.

Está frio. Tenho os pés doridos. Mas cumpri uma resolução. Logo a primeira. Sobreviver. E acho que, por caminho, surpreendentemente, vivi.


Marina Ferraz



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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Ceia de Natal

 

Imagem retirada de Pixabay

Os meus avós casaram no dia de Natal. Então, quando o meu avô morreu, a minha avó caminhava lenta e desgostosa pela casa, escondendo as lágrimas atrás de desculpas simples. Choram-me os olhos e não sei porquê, dizia.

Os olhos choravam-lhe de saudade. Os olhos choravam-lhe de tristeza. As lágrimas eram ornamento triste dos pratos da consoada, regando-os com o sal da alma.

 

Ano após ano, a mesma alergia à falta que ele fazia lhe regava os olhos.

Ano após ano, até ao ano em que também ela não estava para celebrar em lágrimas a quadra do seu matrimónio.

 

Ao redor da mesa, sentamo-nos ainda. Temos o nosso mundo, esse do privilégio, servido nos pratos. Uma dose de desarmonia política e de perguntas inconvenientes. Duas pitadas de piadas descontextualizadas. Bacalhau, batatas e couve cozida. Doces para uma legião. Leitores de clássicos e de fast food literário. Um menu cheio de neurodivergências. E a memória.

 

Sou melhor a conter as lágrimas do que a minha avó era. Ela chorava por dois motivos: por tudo e por nada. Eu guardo-me para o nada. Mas a realidade do mundo é esse nada.

 

Vazios estão três lugares na minha ceia. O do meu avô. O da minha avó. O da esperança.

 

A esperança costumava sentar-se entre eles, onde havia calor. Era ela que amenizava o peso do privilégio, acreditando que se encontraria solução para a guerra e a fome. Era ela que harmonizava as conversas e tirava densidade à paródia funesta e negra. Era ela que sugeria novas obras, que agradassem a leitores e pseudo-leitores.

 

Fico a pensar se a esperança morreu para todos ou só para mim. Mas ninguém lhe serve o prato. E o Bolo-Rei está inteiro. Ela era a única que gostava de Bolo-Rei!

 

Talvez, penso, a esperança tenha morrido só para mim. Talvez porque eu tenha crescido e já não queira saber de prendas, ou sequer goste de as receber.

 

Hoje, passei pelo presépio. O dos imigrantes. O do puto nu na manjedoura. Parei e disse-lhe. Não cresças. A vida é tão difícil e tão dura, que acabarás como todos nós. A carregar a própria cruz em que hás de morrer. Com toda a gente a olhar e sem ninguém dar conta.

 

E depois, pagã como sou – de fé e vida – espantei-me ao perceber que o lugar mais vazio da mesa é o meu. Que desapareço, roída por cada desalento, um bocadinho todos os anos.

 

O que não tenho em hipocrisia, sobra-me em desalento.

Não olhem para mim agora.

Choram-me os olhos e não sei porquê.


Marina Ferraz



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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Areia

 


Sou a irmã caçula de três. Mas não nasci apenas com o apanágio de vir no fim. Nasci também com uma distância temporal que lhes permitiu serem adolescentes quando eu era criança. Ou, melhor dizendo, que me permitiu ser criança quando eles eram adolescentes.

 

Cresci com dois guarda-costas e dois anjos da guarda, que me protegiam principalmente do mau humor parental, assumindo culpas das minhas tropelias ou interpondo-se, qual muralha, entre a figura austera e o meu pequeno (e não tão inocente) eu. Seguiam, provavelmente, o exemplo dos meus avós, que também me protegiam. Ou até o exemplo da minha mãe que, quando não era a fonte da discórdia, também não permitia que mais ninguém o fosse.

 

Serve esta introdução para explicar o seguinte: quando penso naqueles dois seres, penso em pessoas com quem partilho três coisas  pai, mãe e amor.

 

Acontece que ser criança perto de dois adolescentes – ou, melhor dizendo, ser adolescente perto de uma criança – é bastante difícil na época balnear. A época em que a adolescente quer banhos de sol sossegados. O adolescente quer movimento e aventuras de gente grande. E a criança quer brincar com os dois. Então, ao fim de muita insistência – muitas e muitas insistências, vá – era-me dada a orientação para que cavasse um buraco do meu tamanho. Forma simples de conseguirem descanso e evitarem que o meu eu infantil parasse de repetir “vá lá” e “só um bocadinho”.

 

Cavado aquele buraco, brincavam comigo. O jogo chamava-se múmia. No fundo do meu  humilde buraco, punham uma toalha. Sobre o meu corpo, outra, ajustando-a como quem aconchega um filho antes de dormir. Sobre essa, toda a areia que eu tinha tirado do buraco, até que só a cabeça ficasse de fora.

 

Imóvel, com o peso do que parecia ser uma tonelada de areia e incapaz de me mover, eu aguentava algum tempo antes de gritar: “Tirem-me daqui”. Uma, duas, três vezes. “A sério, malta, já chega!”. Nunca tardavam muito a condescender, vindo com risos que me faziam rir também e dizendo-me que a pele, normalmente húmida dos banhos e agora com areia colada, me fazia parecer um croquete. E corria atrás deles. Atirava baldes de água. Riamos. Construíamos cabanas nas dunas. Éramos felizes.

 

Hoje sei que os meus irmãos me prepararam mal para a vida.

 

Sei-o porque vejo gente com milhões fazer comigo o mesmo que eles faziam. Mandam-me cavar a sepultura. Enterram-me. Nem cabeça de fora fica. E eu que grite “tirem-me daqui” quantas vezes quiser. Porque não há quem venha condescender, rir, deixar-me ser feliz em paz.

 

Enumero os grãos de areia que me enterram. Guerra. Fome. Miséria. Injustiça. Mentira. Ódio. Desassossego. Mês no fim do salário. Contas. Impostos. Mais contas. Mais impostos. Mais ódio. Mais mentira. Outra guerra. A mesma guerra. A mesma guerra outra vez. Invasão. Do país. Da carne. Dos dados. Da vida. Taxas sobre a vida. Sobre o viver. Sobre viver. Sobreviver.

Sob... um monte de grãos de areia. Paralisada. Com saudades de ser criança. Enterrada pelas mãos compassivas de quem sempre me salvava de si e de mim e do mundo.

 

Grito

“Malta, já chega!”

 

Vem um novo carregamento de areia.

Sufoco na ampulheta que eles viram entre os dedos da opulência.

Destinando-nos cabanas mais caras e com piores condições do que aquelas feitas de cana e limo.

 

Deuses. Era tão melhor ser criança entre adolescentes do que é, agora, ser lúcida entre tiranos. Que saudades desses dias de praia, em que a sepultura que escavava não era aquela em que iria morrer.


Marina Ferraz



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terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Greve(s)

 

Vídeo publicado no YouTube

Cito, palavra-por-palavra, o que nos pergunta o líder do Governo: Uma greve geral porquê? Uma greve geral para reclamar o quê do Governo e do poder político? Isto, depois de dizer muitos historicamentes. Sabemos que historicamente-isto, e historicamente-aquilo. São histórias e mente. Isso é certo. Mas, hoje, o que incomoda mais é a pergunta. Porque há resposta. Uma greve geral porquê?

 

Senhor Primeiro Ministro, eu explico. É uma greve para evitar a greve. A greve de sono que daria o banco de horas, com a falta de horários compatíveis com a saúde mental e as horas extra. A greve de fome, com a precaridade crescente de jovens que nunca vão sair da senda de contratos temporários e que, perante a inflação, dificilmente conseguirão alimentar-se. A greve de sexo, porque não há melhor forma de evitar uma gravidez do que a abstinência... e ninguém vai ter tempo para cuidar de um bebé ou alimentá-lo... principalmente considerando que o alimento natural é visto com maus olhos pelos seus próprios ministros, que até as lactantes já conseguiram atacar.

 

Esta, senhor Primeiro Ministro, é uma greve para que não haja greve habitacional, ou para que ela não piore. Para que os jovens deixem de viver a eterna greve da independência, vivendo em casa dos pais até estarem perto da idade da reforma. Bem, na verdade, esqueça este último argumento. Reforma. Piada triste para a minha geração, que deverá trabalhar até aos 100 anos, pelo andar da carruagem, e não ter qualquer pensão à sua espera por causa da greve de sexo supramencionada.

 

Esta greve, em palavras que cheguem ao seu nível de intelecto, serve porque a única coisa que ainda não nos roubaram foi a voz. De ouvidos tapados, trauteando a mesma canção do bandido, ignoram-na, mas não a calam. E, para que ela ressoe, é preciso suster a respiração do país e fazer com que o sufoco que nos acompanha nos gritos diários se sinta nos bolsos fundos dos “abnegados” donos disto tudo, recordando que toda a casa começa na fundação, na estrutura, nos alicerces. Lembrando que os alicerces do país é o povo.

 

Mais empática do que o senhor, eu entendo que não entenda. Quando se tem 54 imóveis, comida farta na mesa e um salário de 8 mil euros por mês, é fácil não entender a greve. Eu sei que dizem para “deixarmos o Luís trabalhar” e, por favor, a greve é um direito e não uma lei... sinta-se à vontade para começar a trabalhar quando quiser. Lembrando, por favor, que trabalha para nós e não contra nós... (ainda que não historicamente...)

 

E, agora, vou continuar a minha greve de sono... porque preciso de trabalhar para dar mais de metade do meu salário ao Estado, para impostos, e conseguir pagar as contas. Algo que, provavelmente, também não entende.

 

Já agora, por favor. Pare de dizer que o novo pacote laboral é bom para as pessoas. Primeiro porque nos insulta. Depois porque mente. E o resto é história...


Marina Ferraz



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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Espetáculo

 

Imagem criada por I.A.

A pergunta atravessa o ecrã. Ainda bem. Se viesse num frente a frente, acho que o rosto me denunciaria. Até a mim, que me considero moderadamente boa atriz. Atravessa o ecrã. É só uma pergunta, mas também é uma mina terrestre num percurso de meia-maratona. Tento procurar a suavidade dos eufemismos. Aproveito para reler. Como é Portugal? E respondo da única forma possível:

 

Portugal é um espetáculo!

 

A televisão portuguesa é um espetáculo. O parlamento português é um espetáculo. Os políticos portugueses são um espetáculo. O jornalismo nacional? Espetáculo! A saúde é um espetáculo. A educação é um espetáculo. A função pública, então, é tão espetacular, que é ver as filas para assistir na porta das Finanças e da Segurança Social...

 

Tudo em Portugal é um espetáculo. Mas principalmente os debates políticos! Nem imaginas! Olha: são trinta minutos, com três pessoas numa mesa. Das três, duas estudaram uma lista de piadas tristes e insultos gratuitos. Uma não sabe o que é moderar. Nenhuma das três sabe o que é moderação. E desconfio que nenhum dos quatro – eles e o espetador que assiste – sabe o que é um debate. A cenografia é fantástica, a dança de interrupções é clássica, a sinfonia é moderna, mas com um toque de ancestralidade arcaica. Há poesia nos segundos de silêncio e escrevem-se enredos fictícios interessantíssimos sobre o passado que nunca existiu e o futuro que nunca vai existir. Mas, não te assustes! Ali, nem uma ideia! Nem uma estratégia. Nem um plano. Nem uma solução! Trama novelesca da mais pura, debitada por atores políticos, que assim justificam o nome de atores... embora lhes falte o nível, o charme e o talento. Mas dá para o gasto, já que fazem muito teatro e pouca arte!

 

A televisão aproveita o teatro para o seu espetáculo. Repete o espetáculo. Disseca-o. Apresenta-o dentro de contexto, fora de contexto, com texto, sem texto, com pretexto e sem pretexto. A imprensa repete. As rádios repetem. Diz que disse e... espetáculo! Lemos. O assunto é diverso. Alunos que acham um espetáculo que o ano letivo tenha começado há um trimestre e ainda não tenham professores. E pacientes que acham um espetáculo a consulta urgente estar agendada para daí a um ano e três meses. Acredita! Portugal é sempre a andar...Portugal já nem pára para parir! É ver mães a dar à luz na autoestrada.

 

Espetáculo! Assim vamos andando, de espetáculo em espetáculo.

 

E, depois, o Canal Parlamento, merecedor substituto do Big Brother, num formato que combina o confinamento em espaço fechado de um conjunto de gente intolerável e intolerante com a tirania da Voz do Masterplan, criando as regras para o malabarismo triste que fazemos com o salário para tentar pagar contas e impostos. É do que de mais puro já foi feito no contexto dos Reality Shows! Um espetáculo!

 

Sim. Podes acreditar! Portugal é um espetáculo! Para um país que não apoia a cultura nem os artistas, até chega a ser estranho! Mas Portugal é espetáculo! Tudo o que devia ser sério é espetáculo. Tudo o que devia ser levado com profissionalismo e idoneidade é espetáculo. Só o espetáculo é que não é espetáculo. Porque os artistas querem fazer cultura. Porque os artistas querem fazer arte. Porque os artistas querem – imploram - para que venha um espetáculo. Mas Financiamento? Seria um espetáculo! Mas, espetacularmente, já nem há um ministério exclusivo para a cultura... então...

 

Portanto...sim! Portugal?! É... espetáculo!


Marina Ferraz



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terça-feira, 25 de novembro de 2025

Quem conta um conto...

 

Fotografia de Hélio Silver

Há muitas histórias que se contam. Contam-se verdades, inverdades, desverdades e mentiras. Como são contos contados na mesma conta-corrente, que se esgueiram a conta-gotas pelas rachas do sistema, é difícil separar o que se conta do que conta.

 

Contam-se mortes e vidas. Uma contabilidade feita de poder e capitalismo. E guerras e ajustes de contas e pazes de faz de conta. Tudo por contadores aos quais uma auditoria contábil não conviria muito, evidentemente...

 

Já contamos com isto. Conta-se que antes da conta – ainda a soma do quadrado dos catetos não se sabia igual ao quadrado da hipotenusa – já se contavam contos com pontos a mais pelas mentes quadradas dos contistas de canto da rua. Assim continua.

 

Contos continuam a contar-se. Conta-se o perder da conta ao tempo nas urgências dos hospitais. Conta-se o somar do canto chorado de bebés nascidos na autoestrada. E conta-se que se contou o conto do tempo em que havia SNS e bebés que nasciam em maternidades. Contam-se, portanto, algumas verdades...

 

Mas também se conta que os imigrantes vêm roubar os nossos trabalhos. Mas há quem conte que eles saturam o estado social, vivendo de subsídios. Portanto, contam-se contos que contradizem os contos que se contam. Tudo no mesmo conto, como convém a quem conta. Conta-se que o contante consiga contar com igual afinco ambas as versões, colocando em ambas a fé que aos contadores de contos cabe.

 

No fim, fazemos as contas. Conta não bate com conto e conto não bate com conta... e ainda bem que vieram os euros porque sabe-se lá quantos contos vale aos contistas o conto que  não bate com a conta.

 

Certo é que, no fim de contas, há muitas histórias que se contam. Muitas pessoas que terão que prestar contas, um dia, pelo que foi contado, ou por não se ter contado com elas. Quando se contar esta história, o que me importa é menos o conto e mais a história em si. Porque a história que se conta é muito menos importante do que a história que conta. E essa, senhores, é uma em que só vou ter em conta uma coisa. Na história que conta, eu quero estar do lado certo da história. Dormir tranquila sabendo-o. Sabendo que, na história que conta, o lado que conta pôde contar comigo.

 

P.S.: para quem conta que novembro conte mais do que abril e quiser contar essa história... uma sugestão: conte outra!


Marina Ferraz



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