domingo, 30 de julho de 2006

Critica ao Ensino em Portugal, por Marina Ferraz. Versão do DC.

A educação no nosso país é um tema constantemente criticado. Muitos falam das reformas sucessivas que trazem para Portugal apenas os modelos que, em outros países, já provaram não ser eficazes. Alguns comentam a falta de qualidade do ensino culpando quer os professores quer os alunos, sendo passado a ambos um atestado de incompetência pouco real.
O grave das criticas tecidas ao sistema de ensino português comete, na verdade, o mesmo erro do próprio governo: uma total ausência e ignorância da realidade das nossas escolas, da formação dos professores e das condições de trabalho.
Por isso hoje sou eu que comento e que crítico, porque sou uma adolescente normal, numa época conturbada, a sentir na pele cada erro cometido por quem não sabe o que é melhor.
A realidade que vivem os alunos e os professores é bem diferente daquela que os ministros, fechados nos seus gabinetes, conseguem abarcar. É por isso que tanto nos queixamos do governo! Como podem eles governar o povo se não conhecem o povo? Como podem eles resolver os problemas se a única coisa que sabem sobre eles é o eufemismo de quem não sabe o que é vivê-los desesperadamente?
Dentro das escolas a realidade é bem diferente da conhecida! Por trás dos sorrisos normalmente presentes no rosto de quem passa, existe um mar de tristeza de quem sabe que ser bom já não chega, existe a amargura de quem não seguiu o que queria por falta de saídas profissionais e que agora se vê numa situação complicada que obriga, muitas vezes, a desistir de lutar por um futuro estável.
Não é fácil estar lá, sentir essa tristeza, sentir essa angústia que também eu já tantas vezes senti, e saber que não temos poder para mudar as coisas e que, quem o tem, não pode ou não quer fazer nada porque não sente o mesmo, porque não está perto o suficiente para imaginar sequer o que se sente quando não “acontece só aos outros”.
Eu sou um bom exemplo dos problemas que referi! Tendo uma vocação nata para as letras, para as humanidades, para a literatura, vi-me de repente num curso científico-tecnológico por medo de me tornar mais um dos muitos professores a trabalhar em caixas de supermercado. E hoje, graças a esta escolha que apesar de tudo considero absolutamente lógica, vejo-me com uma média apenas razoável que não chega para atingir os objectivos que criei.
Nunca serei professora, por muito que ache que o faria bem, porque a razão criada pelo sistema não estava de acordo com os sonhos que tinha no mais profundo do meu ser.
Há também, neste sistema, o que pode ser considerado o “reverso da medalha”, ou seja, alunos que atingem notas geniais e que, apenas por isso, optam por seguir Medicina e outros cursos de média elevada, onde poderão obter maiores salários, quando não é nessa área que se encontra a sua vocação.
A nossa sociedade futura, por isso, vai ser uma estranha junção de médicos incompetentes com média de dezanove ou vinte e de pessoas que nascem para a área da saúde e que terão de se contentar com um trabalho medíocre numa caixa de supermercado ou numa loja de roupa. De professores que nunca serão colocados e de gente que desiste dos sonhos e que nunca se irá realizar profissionalmente.
A culpa não é dos professores que, diga-se em abono da verdade, trabalham continua e desgastantemente. A culpa não é dos alunos, porque, mesmo os que desistem, têm bons motivos para o fazer. A culpa é daqueles que se esquecem que os erros, aparentemente tão insignificantes, são sentidos na pele de muitos e correm como um rio de lágrimas que arrasta consigo os sonhos e que transporta cada um de nós para uma tristeza que, infelizmente, é demasiado real.

Marina Ferraz
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Esta foi a primeira critica que publiquei num jornal. Saiu este mês no Diário de Coimbra e, ainda que sem motivo, dado que não foi algo assim tão importante, senti um orgulho especial...
=)
Espero que gostem...

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