sábado, 13 de dezembro de 2008

Lágrimas de Pedra


Ouço a tua voz. Acho-a linda. Como se a noite entrasse nela e as estrelas a iluminassem. A tua voz carente de menina irresponsável que não tem de pensar em nada. A tua voz de velha sonhadora que pode perder toda a sanidade nas últimas histórias de embalar. A tua voz de princesa e de plebeia, de miséria e de ostentação.
Ouço a tua voz. E não há nada senão o silêncio. O silêncio desta noite que me afogou na tua água como se ela fosse feita de todas as lágrimas que choro e me sepultou na tua pedra como se ela fosse parte do meu coração.
Conto-te o que se passa… tu passas-me a mão no ombro como se me entendesses, como se pudesses saber ou sequer sonhar o que se passa dentro deste incoerente peito onde cai toda a certeza de que me proibiram de amar.
Mas eu percorro ruas e vielas. Sempre na mesma solidão. A solidão de não haver mais do que ilusões e desilusões na minha vida! E chego até ti, nua de enganos e de certezas, despida de orgulho e de esperança, como se apenas tu pudesses levar os meus medos para um qualquer lugar onde jamais poderia chegar sozinha.
E tu fazes tudo isso sem ninguém notar! Dizes-me que está tudo bem, que não tenho culpa de sofrer, que foi um anjo negro que sussurrou ao meu ouvido que as minhas lágrimas seriam de pedra (tal como tu és!) e que, sendo de pedra, jamais poderiam desaparecer.
É a tua voz que me acalma… São as tuas doces palavras que me fazem acreditar que existe sempre um porto para ancorar e um horizonte a ser alcançado. São sempre elas que me fazem desejar o que não posso ter e que me fazem mentir ao coração quando ele pensa que tudo está errado.
Ouço a tua voz. Essa voz que, no silêncio, mais ninguém consegue ouvir. Ouço-a e decoro-a. Quando dou por mim, há um imenso amor que não controlo em torno dessa vontade de te ouvir, um desejo incandescente de estar sempre ao teu lado, mesmo quando estar ao teu lado é somente estar sozinha no mais escuro dos silêncios.
Porque te ouço mesmo sabendo que jamais proferiste uma palavra. Porque entendo a tua magia mesmo quando permaneces imóvel e cega, no mesmo local onde nasceste. Porque preciso de ti mesmo quando o meu mundo é só um fragmento de ruína e destruição.
E as minhas lágrimas de pedra caem sobre ti. Sobre a tua voz que apenas eu posso ouvir e sobre a tua bondade que ninguém conhece porque ninguém te ouve.Ouço a tua voz. Acho-a linda. Porque faço parte do teu misticismo, como se eu própria fosse uma extensão de pedra que não sabes que te pertence mas que jamais se desprendeu de tudo o que és. E eu ouço a tua voz… preciso dela ainda que ela seja feita de silêncios e ilusões. Porque é a tua voz, é para mim e estará sempre aí quando eu precisar. És a fonte das minhas lágrimas de pedra e o anjo negro que a elas me condenou sabia que em ti encontraria o consolo de haver sempre um abrigo, ainda que ele não ficasse na montanha!

Marina Ferraz

2 comentários:

aorpheu disse...

Oh 'pariga!

Eu tenho medo de passar nesse sitio desde que o Jony, estando o Trio Jr lá dentro, transformou a fonte num jacuzzi...

Eu acho que o grande problema está na pedra... Se calhar se em vez da fonte, começares a contemplar a rotunda da Boavista... Se calhar as coisas ficam menos escuras... Se calhar...

aorpheu disse...

Se não calhar, que se lixe! Calhau por calhau, cada um com o seu. E por ser nosso é que vale a pena, ainda que os outros não percebam, não queiram perceber ou façam de conta que não percebem.

É tudo uma questão de ponto de vista!


(esta treta anda a gozar comigo, estou a continuar o comentário que o blogger se lembrou de delimitar)