sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Segredo


Foi em segredo que escrevi o meu primeiro poema. Os meus primeiros versos eram feitos de um sorriso intemporal e quente a rasgar o meu rosto de criança. Tinha uma vida para viver. Mil desgostos à minha espera. Muitos mais poemas para me afogar.
Então, foi em segredo que segui a vida. E foi em segredo que compreendi que um poeta nunca aprende a ser verdadeiramente feliz.
Com um medo apenas superado por uma insanidade crescente, foi em segredo que guardei a minha suposta felicidade dentro de uma caixinha de jóias e foi em segredo que a selei para que os meus poucos momentos felizes não pudessem fugir de mim ou ser-me roubados.
Foi em segredo que me apaixonei e foi num segredo ainda maior que dei por mim a quebrar a minha caixinha e a oferecer-te a minha felicidade como se conhecer-te bastasse e já não precisasse de mais nada para poder sorrir. Nunca te apercebeste que ta oferecera porque foi em segredo que ta deixei no bolso, durante aquele abraço que nem te recordas de me teres dado mas que tinha mil promessas que apenas eu podia ouvir.
Foi em segredo que te vi virar costas e transformares o meu mundo num mundo que já não me pertencia, e foi o maior dos segredos a minha certeza de que, ainda que dissesses o contrário, não voltarias àquele lugar.
Imersa no silêncio dos murmúrios de um pensamento, foi sozinha e em segredo que compreendi e aceitei o que não tinha como ser compreendido ou aceite, e foi em segredo que limpei as lágrimas e ergui a cabeça.
Foi em segredo que rezei por ti, desejando que a minha felicidade ainda estivesse guardada no teu bolso e que nunca dele saísse. Foi em segredo que agradeci aos céus por te ter conhecido e que desejei que houvesse nos teus lábios um sorriso igual ao que ofereci ao espelho depois de escrever, em segredo, o meu primeiro poema.
Foi em segredo que adormeci sem vontade de acordar e foi em segredo que me entreguei a sonhos proibidos. E os meus olhos, sem lágrimas ou melancolia, fizeram-me acordar disposta a enfrentar um mundo onde eu já não queria estar.
Então, foi em segredo que encolhi os ombros, agarrei a caneta e escrevi um poema de amor. Foi um poema triste. Um poema sobre o silêncio e a saudade. Um poema sobre todos os segredos que a minha alma guarda e que jamais quebrará. E foi em segredo que continuei a respirar sem viver, pensando num breve sorriso que a única coisa realmente certa que fiz na vida foi deixar no teu bolso a parca felicidade que guardara e escrever um poema que, mais do que palavras, carrega todos os segredos do meu coração.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

2 comentários:

Anónimo disse...

Os segredos são sempre difíceis de carregar, eu compreendo-te. E mais do que segredos, por norma são atitudes que sabemos que estão erradas e o conflito que se gera dentro de nós nem sempre é pacífico. Mas já passou e isso é que importa :)

M
Um beijo grande*

aorpheu disse...

Sabes o que dizia o Cardoso Pires, esse senhor que me ensinou a dançar uma valsa lenta de memórias que se reconstroem? "um homem só escreve porque se sente na solidão, a solidão é condição necessária para a escrita." É que isto de ter sido em segredo, só mostra que o teu poema foi sentido sozinho e foi por isso que foi sentido.
O que sentimos é sempre segredo porque mais ninguém o sabe realmente. Por isso, tudo o que sentimos é segredo, minho linda. E nunca te arrependas de carregar segredos. Se tu imaginasses os que guardo...

Guarda-os sempre, são teus, só teus e por isso valem muito. Continua a ter muitos segredos e a distribuí-los a todos em caixinhas de veludo vermelho (cliché aqui da tia :P)


Abraço apertadinho*


(aconselho ouvir a música Casa, do Rodrigo Leão, cantada pela Adriana Calcanhoto)