sábado, 9 de maio de 2009

Lágrimas de Pedra II


Hoje, percorri ruas e vielas. Não era a mesma solidão. Já não era a solidão de não haver mais do que ilusões e desilusões na minha vida! Era a solidão deixada pela própria solidão, a ausência desse sentimento que sempre me fez odiar o ar que respirava.
Hoje, cheguei até ti vestida de enganos e de certezas, vestida de orgulho e de esperança. E levaste os meus medos para um qualquer lugar onde jamais poderia chegar sozinha.
Esta noite, ao contrário de tantas noites, tu olhaste para mim e fizeste-me uma vénia. Os teus olhos de pedra estiveram mais perto do que nunca, a tua mão tocou o chão para me cumprimentar. Amei-te mesmo depois de terem manchado a tua fachada. Descobri que te amaria ainda que fizessem contigo as maiores barbaridades e então sorri porque é bom ainda te amar depois de tudo o que se passou…
Calou-se a multidão a teus pés e cantou-se o fado. Cantou-se a beleza, o amor e saudade. As tuas lágrimas de pedra caíram, invisíveis para todas aquelas pessoas, mas eu vi-as. Vi-as quando as guitarras começaram a tocar e quando o meu orgulho e a minha esperança passaram o meu ombro esquerdo e a minha capa foi finalmente traçada.
Senti finalmente que uma era se acabava para outra começar. E ouvi a tua voz uma vez mais, dizendo que eu ia a tempo de mudar o rumo do mundo e que fechar os olhos por um tempo não significava que não pudesse abri-los para ver tudo de forma mais clara.
Então, de capa já traçada, olhei para ti e apercebi-me de que eu era muito pequena e que a vida era grande demais para a perder numa tristeza sem razão.
Não sei se foi pelas palavras finalmente ouvidas, pelos teus olhos pousados em mim ou se foi simplesmente pela minha capa negra finalmente traçada mas senti-me feliz. Realmente feliz. Aquela felicidade completa e única que é tão rara nesta vida.
Talvez o mundo me tenha levado por caminhos errados (tortuosos, até). Ou talvez não tenha sido o mundo. Admito: talvez tenha sido eu própria a culpada dos meus caminhos! Mas esses caminhos errados levaram-me justamente para o ponto de partida. Cheguei a casa. Não sei definir como gosto de voltar finalmente para casa! Gosto de sentir finalmente que sei onde está o meu lar. E se agora me sinto assim, não terão valido a pena todos os meus erros?
As tuas lágrimas de pedra nunca vão secar, da mesma forma que algumas partes de mim continuarão infinitamente maculadas. Tu e eu temos a eternidade. Temos a maravilhosa certeza de que é para sempre! - Tu tens os teus olhos de pedra, os teus abençoados olhos que ano após ano podem presenciar as reacções de pessoas que traçam a capa pela primeira vez, olhos que podem ter um vislumbre de paixão em mil gestos para depois verem num simples olhar o verdadeiro amor. E eu, eu terei sempre esse olhar, esse olhar agora livre de grandes gestos que não valem nada, mas repletos de sensatez e de maturidade.
Cheguei a ti, nua de tristeza e amargura. Foi a primeira vez que me olhaste e viste que eu sorria. Foi a primeira vez que acreditaste na minha expressão alegre. Foi a primeira vez que conseguiste acreditar quando afirmei não ser apenas tua.
E eu ouço a tua voz, como antes ouvia. Falas-me durante alguns minutos, fazendo-me corar um pouco com algumas expressões que, de tão reais, me fazem sentir embaraçada. De súbito a música pára e tu calas-te respeitosamente. Então, ergo o meu tricórnio no ar em vez de bater palmas (afinal, não se aplaude o fado), agito-o levemente num agradecimento mútuo ao fadista que me fez pensar, aos amigos que mataram a minha solidão, às palavras que acalmaram a minha saudade, à madrinha que traçou a capa negra do meu traje minhoto e a ti, meu abrigo, que estiveste aí uma vez mais, olhando para mim por entre a multidão e vendo-me vestida de orgulho e de alegria.
A lua estava cheia e ia alta no céu um pouco nublado. O fado recomeçou e eu vim embora, saciada. Silêncio… ouçam apenas o silêncio agora! Porque é música aos meus ouvidos o bater satisfeito do meu coração!

Marina Ferraz

8 de Maio de 2009
Serenata

1 comentário:

IpsaEgo disse...

Oh Rua do Capelão
Juncada de Rosmaninho

Se o meu amor vier cedinho
eu beijo as pedras do chão
que ele pisar no caminho

Tenho o destino marcado
desde a hora em que te vi

Viver abraçada ao fado
Morrer abraçada a ti

Oh meu amor adorado
viver abraçada ao fado
morrer abraçada a ti



Acho que faltou lá esta! :)