segunda-feira, 13 de julho de 2009

A morte da fera


A penúltima pétala de rosa caiu naquela madrugada e o Monstro não tinha dormido. Os olhos fitavam-na com desapego. Esperara anos pelo amor, esperar mais umas horas pela morte não podia ser difícil…
Viu a pétala cair, fixando o seu movimento ondulante até esta tocar o chão, a seus pés. Pensou em pegar-lhe, agradecendo-lhe por lhe anunciar o fim antes da última pétala o condenar ao esquecimento. Não o fez. Não o fez porque sabia que as suas garras a transformariam em poeira se tentasse.
Então, o Monstro recostou-se na poltrona e fechou os olhos para, de seguida, os abrir. Não temia a morte mas não queria adormecer. Restava-lhe aquele dia, talvez menos…
A última pétala da rosa agitou-se mas não caiu, ameaçou-o apenas, fazendo-o uivar de temor.
O uivo, que podia ser uma lágrima ou um grito, percorreu o palácio, ecoando pelos corredores vazios e assustando os seres encantados que, tal como o Monstro, estavam agora condenados à morte.
Ouviu um barulho lá fora e forçou-se a levantar-se. Seria imperceptível a qualquer outro mas ele ouvia claramente o som doce da neve a cair no solo, formando uma camada gélida sobre a relva seca do jardim.
Estendeu a mão mas nenhum floco a tocou. Era como se a sua aparência repelisse até o gelo que caía sob a forma de algodão frio.
Fechou os olhos novamente, respirando fundo. Também queria recordar os cheiros e os sons. Agora que a morte estava tão perto, era fácil amar tudo em redor.
Entrou e voltou a deixar-se cair na poltrona, fazendo-a ranger sob o peso do seu monstruoso corpo.
Agarrou o espelho mágico mas não lhe perguntou coisa alguma, limitou-se a fixar o seu reflexo, procurando nele qualquer réstia de humanidade. Não a encontrou. Já não era um homem! Questionava-se agora se algum dia o fora…
A voz da feiticeira estava ainda gravada na sua mente. Amor… como podia ela pedir que ele aprendesse a amar ou fosse amado? O amor estava em vias de extinção e ninguém se havia de apaixonar por alguém com o seu aspecto. “Por um monstro!”, acrescentou para si.
Com uma raiva desmedida, atirou o espelho contra a parede, fazendo-o partir-se em mil pedaços.
Pela primeira vez desde que se lembrava, sentia um ardor estranho no nariz e apetecia-lhe chorar. Cerrou os dentes, forçando-se a parar de ser racional. Era uma besta, não uma pessoa. Não era altura de se reger pelos sentimentos em detrimento dos instintos.
A última pétala caiu. Demorou mais do que a outra. Ondeou pelo ar, dançando como se troçasse da dor que dava àquela fera. Ele respirou fundo pela última vez e depois caiu. Uma gota de água salgada percorreu-lhe o pêlo e caiu consigo. Todos os objectos encantados do palácio se imobilizaram. Um segundo depois, todos eles desapareceram juntamente com o Monstro, deixando no ar apenas pó, iluminado pelo sol nascente daquele dia.
O palácio mergulhara em silêncio e cheirava a morte, apesar de nenhum ser vivo ter sensibilidade bastante para o detectar. A fera morrera e a rosa murchara.
Foi então que o portão chiou. Não era aberto há mais de cem anos.
Uma rapariguinha do campo entrou, destapando a cabeça. Era de uma beleza estonteante. Tez pálida, lábios cor de cereja, olhos castanhos e abertos, esperançosos. Fitou o palácio com curiosidade e entrou a medo.
Estava totalmente deserto…
Imaginou-se num conto de fadas. “Princesa Bela”, murmurou para si mesma, sorrindo. Era fácil imaginar-se assim, era uma sonhadora presa a histórias irreais de livros de fantasia.
Rodopiou sobre si mesma e depois tornou a sair, sabendo como era ridículo imaginar que aquele velho palácio abandonado e a cair aos bocados podia, alguma vez, ser parte de uma história de encantar, como as dos seus livros.
Era o seu conto de fadas… mas ela chegara tarde demais.
É sempre assim! Toda a gente chega tarde demais. Toda a gente parte demasiado cedo. E os homens morrem como monstros. Sozinhos. Sem amor. Totalmente sozinhos.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

2 comentários:

A Revisora disse...

Bem, não sei se é totalmente mau chegar tarde demais. Evita-se muita coisa. Evita-se conhecer o monstro.
Mas, é certo, que também se evita viver e, da besta, conhecer o bestial. "Quem feio ama bonito lhe parece". O amor é uma espécie de ocúlos para filmes a 3D: mostra-nos as coisas de maneira irreal. Era por isso que um palácio aos bocados era um conto de fadas.
Provavelmente nem chegou tarde. Chegou e isso é, por si só, uma vitória.
Se a rosa murchou. não quer dizer que as rosas tenham acabado. Há que podar novas roseiras e encetar novas flores.

Já dizia o meu amor (Nuno Júdice, entenda-se), "Como as rosas selvagens, que nascem em qualquer canto, o amor também pode nascer de onde menos esperamos."

É só esperar que elas cresçam.


E se há pessoas que partem demasiado cedo - e são muitas - é porque foi assim que escolheram o destino da viagem. E, acima de tudo, a companhia.



"she, may be the beauty or the beast..."


=D

Anónimo disse...

1 analogia perfeita ao que se passa na realidade. a vida é tudo menos 1 conto de fadas, temos o exemplo tão simples e funesto de "Lady Di". contudo, atrevo-me a dizer, que somos nós a quem compete escrever o conto de fadas da nossa vida, seguirmos os nossos sonhos sem nunca desistir deles apesar dos entraves, às vezes quando não se pode andar em linha recta....faz-se algumas curvas e contra-curvas...mas o que importa é chegar. compete-nos a nós fazermos o k nos torna felizes, amarmos e se tudo correr bem sermos amados. e tá claro k pa isso não podemos ficar sentados na poltrona a ver a rosa murchar.
a vida n é 1 conto de fadas.. mas podemos sempre torna-la melhor, eu por exemplo para tornar a minha melhor farei sempre questao de te ter a meu lado minha querida amiga, porque sem ti n seria 1 conto de fadas mas algo do genero da divina comedia de Dante, que de comedia n teria nada, mas sim reflectiria mais a parte em k ele percorre o inferno.
Beijinho grande do HS