terça-feira, 12 de junho de 2012

Impossíveis



Ela fez o impossível. Acordou. Acordou na madrugada pardacenta de uma noite que ainda não vira o fim. Chamou a alma e a dor. Disse-lhes "bom dia" com desapego. Desceu as escadas, bebeu um café forte e outro mais forte a seguir. E abriu os olhos à vida, num espreguiçar guloso de quem deseja mais uns minutos de cama.
Ela fez o impossível. Agarrou nas folhas rabiscadas da sebenta. Atirou os livros gastos do uso para dentro da mala. Foi para o canto mais longínquo da casa trabalhar. Pousou os olhos nas coisas, levou a mão à caneta e simplesmente fingiu que o mundo acabava ali. Que começava nas frases mais simples e se estendia às definições mais difíceis de encaixar na mente.
Ela fez o impossível. Passou as mãos nos cabelos, confusa, e prendeu-os, aproveitando cada movimento para libertar os músculos tensos das muitas noites de insónia. Respirou fundo. Ouviu o silêncio e cansou-se dele com a facilidade óbvia de quem tem muito para fazer.
Ela fez o impossível. Comeu à mesa. Falou de trivialidades. Fingiu que se importava com o estado do tempo ou do país. Fingiu que queria saber qual o estado do seu signo para aquele dia. Riu de uma piada que não tinha piada alguma.
Ela fez o impossível. Trabalhou a tarde toda e noite fora. Enquanto as estrelas caíam e a lua descia no horizonte alado de um mar que ficava à distância do esquecimento. Ignorou o mundo. Ignorou a rua, onde ocasionalmente passava gente, falando alto ou uma ambulância com o tom de aviso.
Ela fez o impossível. Fechou os livros e subiu as escadas e caiu na cama. Fechou os olhos, despediu-se da dor e da alma, com um "boa noite" ternurento. Sabia melhor do que ninguém que diria "bom dia" alguns minutos depois.
Ela fez o impossível. Muitas vezes. Por tempo demais. Mas era insuportável continuar. Então ela esboçou um sorriso de lágrimas nos olhos e pensou nele, enquanto a solidão pesava e a saudade lhe acarinhava o rosto que humedecia. Pensou nele e nos motivos que tinham feito da sua vida um quase-nada que todos invejavam. Pensou nele e deixou escapar, no tom de uma oração, um "amo-te" gaguejado e entrecortado no choro.
A insónia chegou, por fim. Lavou-lhe o cansaço com as lágrimas e não a deixou dormir até chegar a alvorada. Então, ela fez o impossível: acordou de um sono por dormir na madrugada pardacenta de uma noite que ainda não vira o fim. E começou mais uma jornada de impossibilidades. Lutando contra os pensamentos e contra o tempo e contra a vida.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet


4 comentários:

Anónimo disse...

Sempre assim... Vida de muitos! Adorei o texo, parabéns pelo blog. Bjs

Anónimo disse...

Gostei, muito bem escrito, escorreito, mesmo...parabéns...é vida de alguns, sim.

Mi Lôra disse...

Nossa... qtas vezes vivems nas impossibilidades da vida... bjus

Anónimo disse...

Nossa tudo a ver comigo =/