terça-feira, 7 de agosto de 2012

Já chega, princesa



Já chega, princesa. Deixa os sapatos na escada mesmo e não fiques à espera que tos levem à porta, com um anel de noivado. Despe esse vestido que te prende os movimentos e não te deixa respirar. Solta os cabelos. Vai correr. Fugir da suposta perfeição do teu rosto pálido e da luz inigualável dos fios dourados que te adornam a face, onde os olhos azuis como safiras refletem o céu e os lábios escarlates têm a pureza das pétalas de rosa. Tens de fugir. Fugir do que te fizeram os teus antepassados e do que te fazem os teus companheiros de viagem, neste tempo sem finais felizes.
Precisas de entender: dentro de ti há mais do que cabelos louros ou olhos azuis. Tu sabes. Tu pensas. Tu acreditas. E é maravilhoso. Porque tu podes ser quem tu quiseres, sem seguir as normas que te impõem.
Há mundos além do teu mundo e amores além do teu amor. Não queiras vergar-te aos pés de ninguém. De costas direitas e de rosto erguido. De braços cruzados sobre o peito. De sobrolho franzido. Pedindo explicações. Podes fazê-lo. Não sejas somente o reflexo das amarras invisíveis desse reino sem magia. Sê quem tu quiseres. A menina pacata ou a aventureira sem medos. A esposa calada ou a mulher rebelde. Ninguém pode ditar quem deves ser. Por isso sê-lo. Sê quem tu quiseres.
Mas, primeiro, larga essa rigidez. Solta o corpete. Liberta-te da obediência cega. Foge e olha em redor. Vê o que não te deixaram ver. Entende que te cegaram. Compreende! Ninguém vai viver a tua vida. Ninguém pode exigir que vivas um destino predefinido.
Já chega, princesa. Chega de ensinares às crianças que o amor é a meta e o casamento a recompensa. Chega de sorrisos em vestidos brancos e de bebés com cheiro a caramelo, em roupinhas azuis e cor-de-rosa. Diz-lhes a verdade. A verdade sobre como o amor tem altos e baixos, sobre como o casamento é um contrato num papel que não define sentimentos, sobre como perdes noites em claro sem dormir para cuidar dessas crianças. Diz-lhes que, por vezes, desejavas ter tido melhor sorte, a sorte de te bastares.
Já chega, princesa. Chega de destinos pré-feitos, de roupas que te prendem e te limitam, de meias palavras, ditas com doçura. Cria o teu destino. Segue o teu caminho. Entende: não há nada de mal com o amor, ou o casamento ou a maternidade. Mas, se for esse o caminho, que o seja porque o queres e não porque o achas mais certo.
Já chega, princesa. Já chega de seres chamada de princesa. Segue o teu caminho e sê mulher!

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

4 comentários:

Anónimo disse...

Eu adorei,é lindo,parabéns Marina
-Jennyfer Aguillar

Ana Paula Mota disse...

SIMPLESMENTE MARAVILHOSO <3

José Esteves Raposo disse...

É, para mim, um dos melhores, senão o melhor texto que já li aqui! Fala a verdade, verdadeira. Das nossas mulheres, do dia a dia. Continua!

Daiane Dantas disse...

Wool é isso.