terça-feira, 9 de julho de 2013

Nada


Nada. Não havia nada que ela não amasse nele. O cabelo desgrenhado e os olhos tristes. O sorriso aberto, os abraços fortes. A voz. Não havia nada que ela não amasse nele.
Os defeitos prementes e repetitivos eram para ela a beleza daquela flor de Outono, que caía imprudentemente com o vento, de formas inexplicáveis e incompreensíveis. Ela não queria amá-lo. Mas era difícil não o amar porque não havia motivos para não o amar com toda a força da alma. Nada. Não havia nada que ela não amasse nele.
Mas a vida traiu-a. Não nos trai a todos? A vida traiu-a com a imagem cruel das costas dele. Da indiferença dele. Do silêncio dele. E como não havia nada, nada que ela não amasse nele, ela aprendeu a amar-lhe a distância e o silêncio e a indiferença.
Nada. Hoje não há nada que ela ame nela própria. Ela não ama a forma como perdeu as certezas. Ela não ama a forma como deixou que os joelhos cedessem e o chão a engolisse. E, mesmo de rastos, não há nada, nada que ela não ame nele.
Queres saber? Ela é louca. Chora todos os dias e esconde atrás de sorrisos dores que ninguém pode entender. Ela deprime e escreve. Ela não encontra motivos para acordar a cada manhã e tem dificuldade a adormecer todas as noites. E mesmo assim não há nada, nada que seja fraco nela. Porque ela acredita no amor e vive-o o melhor que sabe. Porque ela pode não encontrar motivos para se erguer mas ergue-se sozinha a cada manhã. Porque ela escreve o que sente, mesmo quando as palavras se juntam à dor e a acentuam.
Nada. Não há nada que ela não ame nele. Não há nada que ela não odeie em si mesma. Não há nada que ela deseje mais do que recuperar o amor que perdeu e destruir o amor que tem. Porque não é justo amar quem esqueceu. E não há nada, nada que a vida possa fazer para pedir perdão pela traição que foi cativar o amor entre duas pessoas que nunca iriam estar juntas.
Ainda assim, de mal consigo e com a vida, é a olhar para o passado que ela pára e sorri. Porque não há nada, nada que ela mudasse... porque não há nada que ela não ame no verbo amar. Porque não há nada, nada que ela não ame nele.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

4 comentários:

Jennyfer Aguillar disse...

Que texto lindo minha querida,tão cheio de sentimento e verdades,tão bom de ler e sentir.É perfeito.Parabéns querida
Beijinhos Jenny ♥

Gloria Almeida disse...

Sem comentários...
Choro apenas...de tanto que este texto, hoje , me tocou a alma.
Parabéns Marina Ferraz !!!

thom olive disse...

Eu sei exatamente como é este sentimento. amar em silêncio, chorar e esconder atrás do sorriso, mas a vida segue! digamos que o amor, é como uma rosa no jardim, se for colhida ela seca e não terá mais o mesmo brilho!!

THOM OLIVE

Maiara disse...

Choro litros lendo tantas verdades!!