segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Metade



Foi sempre assim. Metade. Como se não houvesse forma de ser maior. Melhor. Completo. Foi sempre metade. Solidão acompanhada. Vitórias perdidas. Momentos entregues ao ar, para se dissiparem juntamente com a sensação de que nada estava certo. Metade.
Foi sempre assim. Olhar ao espelho e ver o corpo sem a alma. Estar triste e sentir uma alma sem corpo. Estar magoada e saber o coração sem vontade. Metades das metades de mim, divididas aos poucos, até não serem mais do que grãos de poeira a esvoaçarem pelo céu da minha vida, ocultando-me o sol da felicidade.
Nunca conheci outra coisa. Apenas metade. Metade da vida. Metade do contentamento. Metade da realização. Metade das metades sem fim que se acumulavam em nadas, em vazios, numa sensação eterna de que metade da vida era um caminho para a morte que tardava.
Foi sempre assim. Metade. Parcelas indefinidas de mim que não eram eu. Sonhos empilhados em poemas, que se somaram em livros e se empilharam em estantes onde metade dos sentimentos eram meia mentira. E metade dos sonhos ficaram esquecidos nas meias mentiras onde meias verdades dançavam valsas sem par.
Sem conhecer outra coisa, habituei-me ao espelho que me mostrava metade de mim. Habituei-me a ver metade do meu rosto chorando metade das lágrimas que me inundavam a alma e a sorrir meios sorrisos quando me cruzava com gente no meio da rua.
E metade dos sentidos ficaram presos nas metades indivisíveis do que nunca foi completo. Sem que houvesse mais do que cicatrizes na metade mais frágil da minha pele onde se cumpriu metade de uma profecia que fazia meias promessas de uma eternidade oca.
Foi sempre assim. Metade. Metade amor. Metade vazio. Metade alegria. Metade tristeza. Metade sorriso. Metade lágrima. Metade indolência. Metade euforia. E as metades somavam-se em mais e mais metades de vazio, que eram metade eco, metade vontade, metade de nada.
E eu caminhei, em meios passos por meias ruas onde pessoas às metades olhavam para mim e me viam inteira, como se eu pudesse sê-lo. E rasgava-se em mim a vontade da vida que seguia, andando de metade em metade, tentando emendar com costuras largas e mal feitas os espaços vagos das metades que sobravam e das que não havia em mim.
Andei pelos trilhos mais negros do que ficava no mais fundo. Procurei as metades certas que se uniam às minhas metades e me podiam tornar alguém com um principio, meio e fim. Procurei as metades que me dariam coerência, sorriso, felicidade. E cansei-me de olhar para dentro das minhas metades de vazio onde já não parecia haver metade de nada que valesse a pena.
Foi sempre assim. Metade. Como se não houvesse forma de ser maior. Melhor. Completo. Foi sempre metade. Solidão acompanhada. Vitórias perdidas. Momentos entregues ao ar, para se dissiparem juntamente com a sensação de que nada estava certo. Metade. Foi sempre assim. Sempre. Até eu descobrir, nos confins do meu coração, que és a metade que me faltava.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

5 comentários:

MIDTCLA disse...

amei profundo muito profundo...

Jennyfer Aguillar disse...

Nesse texto como em todos os seus,conseguiu mostrar e ilustrar o que as pessoas,assim como eu,sentem.Cada palavra que diz "Esse texto é para mim" e é por isso que te tornas tão boa no que fazes.
Amei de coração.Saudades minha querida,parabéns.
Beijinhos Jenny ♥

Anónimo disse...

Metades que parecem tão poucas não é.Ótimo texto,tenho gosto,muitos parabéns.

Anónimo disse...

O meu favorito desse ano *--*
Parabéns
Paola

Jessica A. disse...

Gostei muito desse texto,ele é especial e você escreve muito bem sempre. :D