terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Segundo acto


A luz do palco apagou-se. Com ela, deixo apagar o sorriso. Faço uma vénia à solidão. Começa o segundo acto desta peça chamada vida. Aquele que decorre sobre as tábuas esfarpadas do chão da realidade, onde caminho, de pés descalços, sem outro texto que não o do pensamento. A luz do palco apagou-se. E o sorriso, tal como a roupa, tal como os ornamentos, não era meu para trazer para casa. Deixei-o lá, pendurado no cabide, juntamente com a ilusão.
A luz do palco apagou-se e estou cansado.
Ainda ouço os aplausos. Os risos. Gargalhadas. E a sombra do desassossego, esquecida no camarote, juntamente com as mágoas e as desilusões. Naquela casa de três paredes, conto muitas vezes a história de quem nunca fui. E sou-o. Sou-o nos olhos das multidões contentes que riem e aplaudem e incentivam.
Sou uma marioneta. Os meus fios puxados pela ilusão sadia de que, um dia, as luzes do palco vão apagar-se e o sorriso não vai. Mas, todos os dias, quando se apagam os holofotes, deixo no palco a pele e o sorriso e o calor da vida. E preparo a alma para encarar o frio das ruas onde a morte espreita e o sangue gela.
A luz do palco apagou-se. Com ela, deixo apagar o sorriso. Fecho-me em mim. Custa ser eu. Não sei ser outra coisa. E arrasto os pés, pelos caminhos cinzentos da rua suja, cumprimentando o vento e as estrelas. Tenho lágrimas dentro da alma. E quero deixá-las verter. Mas fica-me o desconforto do choro. Fica-me o desconforto de não ter, sequer, por ou para quem chorar.
A luz do palco apagou-se. Apago o sorriso. Fecho-me em mim. E estou cansado. Avançando pela rua onde não há nada, compreendo que, entre o palco dos sorrisos e o choro calado da alma, não há mais do que ruas desertas onde fico sem mim, esperando que amanheça.
Vou só deitar-me um pouco. Estou tão cansado. Vou só deitar-me por uns minutos. Ouvir o silêncio. O grito insensato do silêncio. Vou só deitar-me um pouco. Aqui mesmo, no centro da rua. No centro da linha. No centro da eternidade vazia de mim.
E sinto. O tremor. A promessa. A promessa insensata de que, no final de todas as coisas, virá a recompensa. Talvez a recompensa seja o sorriso. Talvez seja o choro. Não importa. Não quero saber. Quero só deitar-me um pouco. Estou tão cansado. Tão cansado da vida. Tão cansado de mim.
O tremor. A promessa. O som. Acabou o segundo acto desta peça chamada vida. A luz do palco apagou-se.  Deixo acender o sorriso. Tenho lágrimas nos olhos. E nunca mais estarei triste.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

1 comentário:

Jennyfer Aguillar disse...

Que texto perfeito *-*
Actos da vida,chegam os sorrisos e se vão!!
Parabéns querida,beijinhos Jenny ♥♥