terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Despida



Despi o meu quarto das recordações de ti e as minhas mãos da esperança infantil de que podiam voltar a ser agarradas pelas tuas. Despi as paredes de fotografias e as caixas de cartas de amor. Despi o corpo de desejos e selei os lábios para os despir de palavras.
Despi o chão de caminhos e os pés de regressos. Despi a alma de esperança e a vida de sentidos.
Despi a fé de esperança, despi o ar de sentido e até o céu de estrelas para não poder pedir desejos.
Despi-me de bondade e de pureza. Procurei a raiva. Despi a angústia de vergonha e o ódio de medos.
Fiz tudo isto na esperança de poder avançar, de poder roubar aos olhos o desejo de olhar para trás para te procurarem. Mas ninguém pode despir o coração de amor. Ninguém pode arrancá-lo do peito  e arrancar-lhe o único motivo para bater.
Então, para não arrancar a vida ao meu corpo, aceitei amar-te na distância, na saudade e o no silêncio. Eis a vida que levo. Uma vida deserta, despida de quase tudo, onde os olhares estão fixos no passado e a dor se mantém presente. Uma vida nua e fria, despida de esperanças para o futuro.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

3 comentários:

macy disse...

Tão tocante.....
Teresa Carvalho

Jennyfer Aguillar disse...

Emocionante,palavras perfeitas sempre querida :)
Parabéns,beijos ♥♥

lirio do campo disse...

inesplicavel...