terça-feira, 12 de maio de 2015

A tua carta


A tua carta chegou esta manhã. Vinha amarrotada e estava escrita a lápis. O papel, de tão fino, quase comera a palavra. A única palavra que me escreveras, no centro do papel sujo.
Vi-te mais no papel do que nas palavras. Sempre foi assim. Incapaz de seres honesto contigo mesmo, mentias. Primeiro, para dentro. Depois, para fora. E sujavas a alma, amarrotavas o coração e ias falando. Não sei o que dizias. Já não. Entre declarações de amor e pedidos de desculpa, ficou apenas a imagem da tua alma suja e do teu coração amarrotado.
Não foi diferente hoje, na tua carta. A tua carta, quase vazia de palavras, diria o mesmo se estivesse em branco. Mas li-a, ainda assim. Demorei tanto a lê-la como se a tua palavra fosse uma dissertação infinita, escrita na linguagem mais erudita e incompreensível. Aliás, também isso costumava ser assim. Sempre tentei perdoar-te a mentira numa busca pelos sentidos do que fica de permeio, no som dos silêncios abertos. Eram os únicos fragmentos de verdade em ti. Li-os tantas vezes em busca de algo que valesse a pena que, a dada altura, me esqueci de que o silêncio podia ser, também ele, uma mentira.
A tua carta tinha só uma palavra mas perdi-me a lê-la, no constante embalo encardido e amachucado da folha branca, na busca por esse consolo feito de silêncios. Mas o papel, demasiado fino, quase translúcido, gritava. Cada grito era uma palavra. Cada palavra, uma mentira. E o meu coração doía.
Senti em mim a vontade de rasgar o papel, de ver os seus fragmentos esvoaçar pela cidade, fora da minha janela. Desejava ver a tua carta pisada pelos pés de mil pessoas alheias, derretida no asfalto onde ninguém pararia para a ler. Depois, travei. A tua carta não me merece a ira e as tuas mentiras não fariam mais do que manchar o já maculado asfalto das ruas.
Com que direito vens agora roubar-me a paz? Não bastou, ainda? Para quê esta carta de infernos? Porque não me deixas acompanhada pela solidão? Ela pode ser fria... mas não mente. Grito, segurando nas mãos a tua palavra e as minhas mil perguntas. Grito, mas grito calada, porque me roubaste até a voz. Mas eu ouço a tua, nesta carta. E, ao ouvi-la, ouço também a mentira. Uma mentira sem começo ou fim que se estendeu em cada recanto de todas as palavras que me disseste. Uma mentira sem perdão que se estende agora, nesta folha rascunhada e suja à qual, por alguma razão, continuo acorrentada. Por que razão? Porquê?
Trago muitas perguntas onde, esta manhã, chegou a tua afirmação. É a tua letra. O teu nome. Uma palavra. Mas pergunto quem ma enviou. Quem a escreveu. Tenho mil perguntas sem resposta, na ilusão tardia de que talvez as mentiras tenham bastado e a carta não exista e eu não possa lê-la. Mas agarro-a entre as mãos. Sinto-a. Vejo-a. Vejo-a como espelho de um bilião de perguntas por fazer.
A tua carta entre as mãos. Uma palavra. Uma palavra sozinha, rabiscada em caracteres descuidados, a lápis de carvão. E a imagem suja e amarrotada de ti, qual fantasma translúcido, feito de papel.
Foi no cansaço desse olhar sobre ti que a palavra rascunhada no centro do papel me atingiu. Atingiu-me como se a tivesses escrito a tinta, como se o papel fosse grosseiro e debruado a prata. Atingiu-me como se fosse verdade.
"Adeus". Li a palavra um bilião de vezes antes de pegar num papel, antes de agarrar a caneta, antes de abandonar as certezas, de deixar o orgulho, de ceder à loucura. "Adeus". Escrevo. Escrevo para dizer que me mentiste, que me magoaste, que arrancaste de mim quase tudo o que valia a pena. Foste o papel sujo e amarrotado no qual tentei escrever um conto de fadas que jamais poderia sê-lo. E, no entanto, escreveste essa palavra, a carvão, no centro rascunhado do papel. "Adeus". E tudo o que eu consigo pensar é no quanto quero responder dizendo: "por favor, não vás".


Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet


Este texto integra, também, a colectânea "Cartas" da Lua de Marfim Editora


1 comentário:

Jennyfer Aguillar disse...

Preciso desse livro sim,claro ou com certeza? Hehe,adorei o texto,mais me identifico ao fato de haver aquela vontade de dizer "não vás",talvez porque acredito sempre no melhor de cada um sem antes entender qual parte é mentira e depois a mentira corroe,machuca e ainda assim o sentimento não passa.
Incrível :D
Parabéns querida :D
Beijinhos Jenny ^.^