terça-feira, 5 de maio de 2015

Por entre elogios


Para a minha mãe

Aos 13 anos eu já era um poema. Não, não era poeta. Era poema. E diziam, à boca cheia, que eu rimava, que eu tinha métrica, que eu ainda ia soar por aí, parte integrante de um mundo feito de palavras. Sorri.
Aos 13 anos eu já era romance. Não, não era escritora. Era romance. E diziam, sem medo, que eu emocionava, que eu tinha uma estrutura definida, que ainda ia ser folheada por aí, peça imprescindível de um mundo feito de criações e imaginação. Sorri
Aos 13 anos eu já era antologia. Não, não era autora. Era antologia. E diziam, sem a mais breve nuance de dúvida, que eu era um sem fim de ilustrações pacatas, a tomar forma no centro de um mundo onde as ambiguidades se escreviam a sangue. Sorri.
Quando eu tinha 13 anos, a minha mãe disse-me: "tu escreves bem, mas não escreves bem o suficiente para seres escritora". Chorei.

Aos 13 anos, eu não era poema. Aos 13 anos, eu não era romance. Aos 13 anos, eu não era antologia. O que eu era aos 13 anos é muito simples de descrever: eu era uma menina que queria ser. Tinha sonhos maiores do que eu e muito maiores do que o meu talento. Mas também tinha uma mãe que sabia parar e ver tudo o que eu podia vir a ser. "Tu escreves bem, mas não escreves bem o suficiente para seres escritora". Por entre palavras meigas. Por entre conversas cheias de conforto. Por entre elogios, apreciações debruadas a ouro, louvores. Esta foi a frase da minha mãe. E foi a melhor coisa que alguma vez me disseram. A frase que me tornou quem sou. O motivo pelo qual agora não digo que sou poema, nem romance, nem antologia. O motivo pelo qual não quero sê-lo. Sim, é verdade: eu não quero ser poema, nem romance, nem antologia. Eu não quero ser produto acabado. Ninguém devia querer. Eu sou uma folha em branco, à espera do amanhã. Uma linha, à qual se soma outra e outra, em cada segundo que passa. E tento, em cada linha, ser melhor do que fui na linha anterior.  

Quando todos me diziam como as minhas palavras eram perfeitas, que o meu futuro era grande, que o meu sonho seria real em menos de nada, a minha mãe disse-me outra coisa. E ninguém quer ouvir essa coisa. A verdade. A verdade tem muitas nuances de insatisfação. Levanta muitos mantos. Abate muitos egos. A honestidade é mesmo assim. Parece crua e cruel. Por vezes desnecessária. É difícil de ouvir. Mas, olhando para a menina que fui, para a mulher que sou, finalmente compreendo. Ela é ainda mais difícil de dizer. É difícil olharmos nos olhos de quem amamos, dispostos a dizer algo que sabemos que vai ferir. Para dizer a verdade crua, a verdade inconveniente, a verdade penosa, é preciso mais do que amar uma pessoa... é preciso amá-la de coração inteiro, com toda a força da alma.

Aos 13 anos, eu não era poema. Nem romance. Nem antologia. E também não era alguém que quisesse ouvir "não escreves bem o suficiente para ser escritora.". Mas é engraçado. Foi a melhor coisa que alguma vez me disseram.

Aos ouvidos dos outros, talvez pareça cruel, insensato. Talvez, algures, no julgamento rápido e desnecessário que tantas vezes se faz, alguém pense, até, no abalo sofrido pelo sonho construído num solo de elogios. A minha mãe não foi cruel. Tão pouco foi insensata. Mas, acima de tudo, a minha mãe não foi a pessoa que abalou os meus sonhos. A minha mãe foi a heroína que vestiu a armadura, despindo preconceitos e olhares de comiseração sentimental e me disse o que mais ninguém teve a coragem de dizer. Desta forma, foi a pessoa que me fez dar o murro na mesa. Agarrar no papel. Escrever. Apagar. Escrever de novo. Amarrotar papéis. Lançá-los ao lixo. Apanhá-los do lixo. Emendá-los. Escrever de novo. Escrever mais. Escrever melhor.

Talvez, se a minha mãe me tivesse dito que as minhas palavras eram ouro fino, eu hoje fosse uma pessoa que não passou pelo sofrimento imediato de ouvir algo que fere. Mas aí, seria certamente detentora de sofrimentos sem fim à vista, inundada pela incompreensão dos "nãos" da vida. Arrastada para o fundo do poço com o sonho impossível de realizar.

Mas a minha mãe disse-me: "Tu escreves bem, mas não escreves bem o suficiente para seres escritora". Ao dizê-lo, apoiou-me como mais ninguém fez. As suas palavras, misturadas no sentido de urgência que partilhávamos e no meu desejo de concretização, deram-me as ferramentas para dizer que não quero ser um poema, nem um romance, nem uma antologia, ao mesmo tempo que me permitiam crescer dentro do sonho ao qual dediquei a vida.

Estou aqui. Cada dia é o primeiro dia na concretização do que idealizei para mim. Lutei muito para aqui chegar. Sinto que chego. Todos os dias. Mas hoje sei. Não chego porque o meu sonho é grande. Chego porque a minha mãe o é. Chego porque ela sabia que eu podia ser melhor e teve a coragem louca de mo dizer. E, hoje, é ela a primeira a dizer: "Ninguém escreve como tu!"

São as pessoas que nos elogiam que nos fazem sentir melhor.
Mas são as que nos criticam que nos fazem ir mais longe.


Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

3 comentários:

Jennyfer Aguillar disse...

Estou sem palavras,os elogios nos fazem chegar aos céus,mas são as criticas que nos fazem manter os pés no chão e lutarmos para sermos melhores sempre.
Sua mãe tem razão em dizer que ninguém escreve como tu,mas foi porque você se permitiu absorver o que ela disse e buscar estar além do que imagina.
Texto incrível mesmo,parabéns querida :D
Beijinhos Jenny ^.^

Analu disse...

Me vi nesse texto porque minha mãe disse no mesmo sentido,mas na questão de ser bailarina,todos diziam que eu era perfeita,que faria muito sucesso,mas ela fez questão de me manter firme e buscar ser ainda melhor todos os dias.
Agradeço a ela porque sem ela eu não alcançaria o que alçancei.

Anónimo disse...

Lindo. Quando as palavras te saem da alma ganham vida propria. Mais uma vez um texto teu deixou-me com uma lagrima no canto do olho.