terça-feira, 14 de julho de 2015

A tua droga

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Escolhe a tua droga.
A mais comum é a apatia. Há quem a misture com antidepressivos e quem a prefira simples. Uns bebem-na de copos sem fundo. Outros mexem-na, olhando o vazio, até o gelo derreter. Sim... a apatia é a mais tradicional. Mas podes escolher outra.
Ouvi dizer que se vende bem, pelas esquinas dos bairros jovens, a euforia desusada e inconstante. Esta é uma droga mais perigosa porque causa estranheza em todos os que seguiram a corrente apática e se formaram nas universidades da letargia. A euforia também pode ser tomada simples mas há quem a misture com festas que duram a noite inteira, tomando-a com álcool e bebidas energéticas até raiar o sol da depressão na alvorada. Alguns tomam-na com o suor dos corpos partilhados na noite. Alguns tomam-na com as tintas que desfeiam as paredes das cidades. Mas também há quem a tome mais pura, com comprimidos e ervas e seringas.
Escolhe a tua droga.
É comum, nas ruas movimentadas, a mentira. A mentira é uma droga que virou moda complementando outra, também frequente nos tempos que correm: o desejo de acreditar, seja lá no que for. A mentira tem variantes. Há quem goste dela pura e quem a prefira com um toque de ironia ou sarcasmo. Dizem que, se for tomada ocasionalmente, não provoca dano. Não seria a droga que eu recomendaria, ainda assim. Causa uma habituação profunda. Vício. Na toma da primeira mentira, que se julga única e só para experimentar, abre-se a porta a uma corrente infindável. A mentira é a droga que se toma como tratamento dela mesma. É um ciclo vicioso e impossível de quebrar sem provocar dano.
Talvez por isso, a droga de muitos é a verdade. O problema da verdade é que, se não for tomada também com relativa moderação, leva ao exílio. A verdade tem limites estranhos e indetectáveis. É quase impossível saber qual a dosagem certa e qual aquela que nos levará a uma overdose social. Mas não seria a pior escolha, posso garantir. Eu própria enveredei por esses caminhos antes de optar por inalar antes os silêncios.
Escolhe a tua droga.
É incomum alguém escolher a censura. É uma droga cara e que exige um estatuto superior. Mas, quem a toma, costuma tomá-la em copos de orgulho, com uma rodela de abuso de poder. É uma droga curiosa porque causa mais dano a quem não a toma. É dela que, muitas vezes, se extrai a apatia e o silêncio que se vende às gentes do povo.
Escolhe a tua droga.
Para sobreviveres aos dias vais precisar dela! A minha? A minha é  outra... há quem lhe chame sonho, há quem lhe chame ilusão, há quem lhe chame esperança. Mas, acredita em mim... não queres escolher a minha. São os que tomam o sonho que mais vezes caem na realidade. A ilusão fere. Afecta o coração de uma forma tão profunda que, por vezes, parece sobriedade.

 Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

1 comentário:

Brunno Santtos disse...

Não se aborda a toma de sonho em excesso (se é que isso é possível).
As drogas alteram o metabolismo, e os efeitos psicotrópicos de algumas substâncias podem ser nocivos para a nossa compreensão da realidade. O sonho em si, e para mim, é a melhor droga. Não sei se "toma" é o termo mais adequado. Também não se ingere. Não se injecta. Não se inala. Não creio que se tome, porque de garantido não tem nada. O sonho aspira-se. Inspira-nos. O sonho vive-se, em dias e noites e entre todas as escolhas que nos deturpam os sentidos. Em pequenas doses, talvez nada seja demasiado maligno. Arrisco, no entanto, que tomas pontuais enriqueçam os sentimentos.

Peço desculpa se me alonguei. O seu texto está maravilhoso. Fiquei com vontade de escrever algo sobre o assunto.

Obrigado pela partilha.