terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Domingo à tarde



Tu tens o drama. Todo ele. Sem o mais pequeno indício de gafe ou de lacuna. E o aspeto cuidado. As sombras e as nuances corretas. O desenho perfeito de um olhar de estrela. Não seria preciso muito. Se tivesses algum conteúdo, poderias ser um filme de Domingo à tarde.
Digo-o sem desprimor. Para os filmes de Domingo, isto é. Servem as gentes e enchem as horas. E criam sonhos comuns em pessoas comuns. Para que tudo mude. E tudo fique igual. Como tu.
Andando pelas rua, algumas pessoas hão-de deixar que se quede em teu redor um sem fim de pensamentos frouxos. Clichés. E de tanto sorrires à mesma amálgama vazia de assuntos insossos, os teus lábios tomarão o sabor de gomos de laranja amarga. Mas não te importes. Haverá quem os beije e quem deles sorva um desigual manto de amores perdidos. Também ele cheio de clichés informais. Tirados desses filmes. Os de Domingo à tarde.
Mas sonha. Nos teus passos dados de salto alto, a virar pés na calçada portuguesa. Sonha com o amor. Esse que nasce pelos belos olhos e as belas palavras. E que termina num coração quebrado que outro amor repara com a massa concreta da esperança. Deixa-te querer isso e mais nada. E dramatiza. Como fazes tão bem. Recorrendo às palavras mais baratas das revistas e atropelando-as com termos formais ouvidos aqui e além. Cultiva os termos como sementes, acreditando que eles fazem nascer na terra baldia e infértil das tuas frases algum tipo de rebento intelectual.
Minha querida. O olhar que se perde, vagando, à procura do amor é mais vazio quanto te é dito que o teu amor devias ser tu. Saltas de nuvem em nuvem pelo conceito, à procura da caixa perfeita onde ficas no espaço seguro que te mura a zona de conforto. Que para desconforto bastam os saltos e a ideia quem inventou a calçada desnivelada que tu pisas. E dizes que não. Nunca, nunca, nunca. Não vais ser feliz. Que tormento. Que impaciência. E o príncipe, lá longe. Se te visse. Se olhasse. Se ao menos…
Tu tens o drama. Todo ele. Sem o mais pequeno indício de gafe ou de lacuna. E o aspeto cuidado. As sombras e as nuances corretas. O desenho perfeito de um olhar de estrela. Fico a olhar para eles. Não sei se sinto pena de ti ou de mim, por não ser tu. Parece simples. Como respirar. Como um filme de Domingo à tarde. Mas mais elementar.
Vais. Virando os tornozelos que se endireitam num salto a cada tropeço, à espera da mão encantada do amor. E, se ele te ampara, é para a vida.
Que felicidade pulsante, caminhando pelas ruas citadinas onde me perco em pensamentos mil, formulando esquemas de compreensão do mundo. Que felicidade! Feixe de louca sedução pelo que se dá como certo. Inebria e luz! Quem me dera. Pode ser cliché. Mas quem me dera! Porque é que nunca tive paciência para os filmes de Domingo à tarde?

Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet




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