quarta-feira, 4 de julho de 2018

O brilho dos teus olhos



Quem rouba o brilho dos teus olhos. Uma história de ódios sem nome, construídos na desonra do tempo que não passa e sempre retorna ao amanhã. Um sopro de dor. Que se veste de sonho. E se deixa cair na ilusão irregrada. Até não saberes. Até não veres. Até negares. Que o tens. Que alguma vez o tiveste. O brilho nos olhos.

Mas tu tiveste. Eu vi. Eu sei. Ainda que não vejas. Ainda que não saibas. E tenho medo. Por ti. Pelos teus olhos. Esses onde alguém insiste em beber luz. Drenando brilhos. Drenando sonhos. Transformando tudo em poeira. Baça. Macilenta. Cheia de nadas que se somam e se somem.

Dos espaços carregados entre dedos que se abraçam até embranquecerem. Com as lágrimas que se secam e se fazem chuva de verão. Com os poemas que se calam nos silêncios sossegados ou desassossegados do peito em chamas. Conceitos. Todos em forma de gente. Mas sem humanidade que reste. À medida que se alimentam, aos poucos, dos fragmentos desiludidos de ti e das tuas ilusões. Roubando. Tanto. Quase tudo. Juntamente com o brilho. Aquele que tinhas. E que trazias. Nos teus olhos.

Quem rouba o brilho dos teus olhos. Por falta de brilho; ou de brio; ou de coração. Uma história de morte que se dá nos batimentos de um coração. Que diz amar. Mas que ainda não aprendeu que o amor não existe senão numa partilha entre iguais. Que se querem. Que se completam. Que acendem o brilho nos olhos, em vez de o apagar.

Dói. Eu sei. É um entendimento que supera as palavras que nunca dizes. Um entendimento que só tem quem se espelha e reconhece, num rosto, outro rosto. Onde os olhos perderam o brilho.

Não tenho pena de ti. Nunca vou ter pena de ti, embora te saiba vítima de bestas e lanças de desamor. Porque te sei gente. Porque te sei forte. Porque sei que podes reacender o brilho dos teus olhos.

Não é hoje. Não é agora. O mundo peca mais por demoras do que por falta de ação. Mas virá. O dia. O dia no qual o brilho roubado será arma. Explosiva. Nuclear. Transformando as mãos que roubam num despojo ensanguentado e em cacos de carne pelo chão que pisas. E, delas, estrelas ascendentes serão luz. Voltando ao seu lugar. Na pureza de ti.

Preocupa-me que a hora tarde e os danos que a sua tardia prece deixa na mágoa de ti. E cria-se, por isso mesmo, um ódio muito simples por ela. Essa pessoa. Essa que rouba o brilho dos teus olhos.

Fico a pensar. E se os teus olhos, que eram todos brilho, não lembrarem mais? E se nunca mais seguirem a dança dos teus lábios? E se nunca mais sorrirem, feito pequenos sóis, no inverno das ruas sempre frias da humanidade? Mas não deixo que o medo me apague a fé da mesma forma que apagou o brilho. Esse. O dos teus olhos.

Levo em mim mil feitiços. Proteção desajustada de sal, sangue e sálvia. E prometo a minha alma ao sol, numa prece para que também os teus olhos o sejam. Abraço a honestidade das coisas frias e sei. Sei quem rouba o brilho dos teus olhos. E por isso sei que lhe hão-de queimar as mãos. Porque há coisas que não podem ser apagadas. Nem usadas. Nem manipuladas. Mesmo quando se roubam. É teu. Esteja onde estiver. O brilho. Esse dos teus olhos. Que alguém roubou.

Quando o quiseres, vai ser teu outra vez.

Até lá, meu amor, para que não te ensombrem os olhos que choram, fica com o meu.



*Imagem retirada da Internet




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