quarta-feira, 25 de julho de 2018

Ode à agressão




Atentai, senhores. Dizemos todas. Preto no branco. Nas redes sociais. E nas sociais redes da vida. Atentai, senhores. Vede. Dizemos. Esta pessoa que me feriu. Esta pessoa que me diminuiu. Esta pessoa que me levou de rojo até que não me sentisse pessoa. Olhai. Eis aquele que amarei a vida toda.

Tenho trinta e duas mil imagens inspiradoras para o dizer. E mais alguns clichés para completar a ideia. Coloco-as em frases soltas, em cada uma das minhas fotografias. E faço partilhas ocasionais que falam sobre a intensidade desta vivência.

No caminho que nos levou da felicidade iludida ao desaparecimento súbito de tudo o que podia rotular-se como amor, eu guardei só o melhor. Vede. Atentai, senhores: ainda estou à espera. Dele. Daquele que me feriu até que sangrasse o lado esquerdo da alma macerada. Daquele que me fez dizer “desculpa” como ponto final, no final das frases. Aquele que me traiu e colocou, em cima dos meus ombros, a culpa de todas as suas traições. Atentai na sua perfeição e no meu desejo de o ver voltar. Atentai senhores.

Quando pára? Esta necessidade materna de ser eterna defensora da ideia desajustada que tivemos da vida com alguém? Esta vontade intensa de divinizar quem nos magoou? Onde acaba? Esta vitimização escusada? Este desejo de tudo, esbatido em espaços vazios e inconsequentes de neurose?

Dizemos todas. Numa partilha regular ou ocasional. Dói e é por isso que sei que te quero. Não sei quem sou desde que partiste. Chorei por ti e é por isso que te amo. Que se foda o amor, se o amor for choro e dor e desapego. Se o amor for isto, eu não quero amar.

Esta é para ti, menina. E para ti, mulher. E para ti, independentemente do teu género e orientação, que continuas a acarinhar e a honrar uma história que te queima as veias. Tu e eu somos iguais. Continuamente identificados com frases que alguém fez – e provavelmente nem sentiu. Apenas porque a ode à agressão é mais simples do que a verdade.

A verdade é esta. Um dia amámos alguém e essa pessoa fez-nos felizes. Primeiro fez-nos felizes. Mas depois não. Depois, tudo se transformou na miserável procura pela memória do que tinha sido. Um dia amámos alguém e o amor, que ardia, passou a queimar.

A melhor forma de honrar esse amor é seguir. Deixemos a ode à agressão para depois. Ainda estamos a tempo de viver.




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1 comentário:

Raquel Malta Neves disse...

Estou arrepiada !!
O retrato de um coração magoado....
É necessário seguir em frente.... Algures lá à frente existe o caminho da felicidade .