terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A estrela cadente




Um dia, viste uma estrela cadente. À medida que os teus passos te levavam das nossas palavras para os braços que te embalavam, já sem toque de carinho, apenas com a memória. Afastavas-te de mim e viste uma estrela cadente. E soubeste, se não o sabias antes, que havia algo no firmamento que o dizia. Que o ditava. Eu era tua. Tu eras meu. Isto era certo.

Olhando para o mesmo céu, numa distância que nos doía, demos por nós a sentir o que não se diz. Que é tão errado cobiçar o que já tem braços em redor. E tão errado querer viver o carinho que fica além dos braços que nos embalam. Mas o errado só o é quando o firmamento não quer que seja certo. E havia a estrela cadente. A que viste. E te disse. Eu era tua. Tu eras meu.

Lutando contra tudo. Contra nós mesmos. Achámos o lugar onde a estrela tinha caído e chamámos-lhe casa. Nela, fizemos rituais de café na cama. Nela, fizemos do amor um verbo que se sente e se faz. De mãos dadas, demos por nós a embater contra o mundo. Primeiro. E, depois, um contra o outro. Éramos o mundo um do outro. Imprimimos tanta força nessa demanda pela plenitude, que erodimos a rocha que nos ligava. E perdemos, estou certa, muitas estrelas cadentes, enquanto deixávamos cair tudo o que nos tornava certos um para o outro.

Até que os braços que te enrolavam, com o toque de um carinho que não sentias, eram os meus. E a distância te chamava, como sopro na distância, era a voz feminina da liberdade. Fingiste que esse murmúrio era estrela e que o universo dizia outra coisa. E foste. Primeiro para o abraço libertador da solidão; depois para quem, numa solidão igual à tua, te fez sentir menos só. E são esses braços que te envolvem, com o toque do carinho que eu quero dar-te e não posso.

Desejo-te esses braços e esse carinho, com uma honestidade tão pura que me tolda os olhos e me deixa cega. Mas ainda olho o céu, à procura da permissão egoísta que me deixe sonhar com a ideia de poder envolver-te mais uma vez. Olho o céu. E lá está ela. A estrela cadente. Para recordar que as pessoas mudam depressa, mas os astros não. O firmamento dizia. Ditava. Eu era tua. Tu eras meu. Isto era certo.

A estrela passou. Ficou a mágoa em mim. E uma ausência difícil de engolir. Porque quero ardentemente a tua felicidade e não pude dar-ta, parece errado agora senti-lo. Mas há a estrela cadente. E o destino é o que é.






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