terça-feira, 5 de março de 2019

O último pôr-do-sol



Ontem vi o pôr-do-sol e, depois, caiu a noite. Ontem foi há mil anos atrás.

Foi o último pôr-do-sol sem mágoa. A última vez em que acreditei que, no dia a seguir, haveria luz. Vimo-lo antes de anoitecermos também, de mãos dadas em frente à televisão, onde se atravessavam pedras para lugares distantes no tempo.

Das inveteradas lutas, algures na Escócia, sacámos risos latentes, que plantados debaixo dos olhos taciturnos, de pouco valiam. Deixámo-nos inebriar pelo romantismo verde, de capas vermelhas que se digladiavam e amores eternos que se deixavam prometer, em campo de batalha.

Talvez tenhamos identificado, ali, o nosso amor, depois do sol posto. Esse campo de batalha, tão deserto de oportunidades, onde ainda se acreditava no amor. E talvez por isso, esquecemos que a televisão estava ligada. Libertámos os corpos de roupa tão depressa que não houve tempo para que nos apercebêssemos da nudez.

Pensámos em ir para o quarto. Mas nunca chegaríamos ao quarto, porque o desejo queimava. As tuas mãos na minha pele e o sabor dos teus beijos nos meus lábios. O sol tinha voltado a nascer, depois de adormecido no mar. E, de resto, ali, éramos nós o sol. Um calor estridente de afagos que se comprometiam, aos poucos, com carícias mais e menos bruscas.

Olhava para nós o futuro, com um riso na voz carente. E os Deuses tinham tapado os olhos para não ver. À medida que fazíamos amor no sofá, ignorando todos os princípios toscos que nos tinham ensinado em casa e no colégio católico, deixámo-nos estar tão perto um do outro como um ser humano pode estar.

Depois do pôr-do-sol, esse foi o nosso pôr-de-lua. Suor e saliva trocados, juntamente com palavras de amor e de prazer. Sem pudores toscos. Sem medo de nada. Com os Deuses a olharem para nós, desaprovando a ideia. Hoje, é quase como se conseguisse recordar-lhes o sussurro aos meus ouvidos. Pobre coitada, que mal sabe o que a espera. Mas, naquele dia, não ouvi. Os Deuses não! Ouvi-te a ti a dizeres que me amavas. Loucamente encantado pelo meu jeito de mulher. Sem pena de nada e com fome de tudo. Porque a vida tinha tanto para dar.

A luminescência intermitente da televisão nos teus olhos dava-lhes uma tonalidade de mar. Lembrando as horas antes, quando o sol nele se punha. E quase vislumbrei o fantasma da felicidade ali, saltando, de esperança, querendo devolver o fogo que nós tínhamos perdido.

Sim… perdido. Mas naquela noite não. Houve algo no pôr-do-sol e na luta antiga entre povos que me fez acreditar. Pela última vez. Sem eu saber que era a última vez que acreditava.

É verdade. Foi o último pôr-do-sol sem mágoa. A última vez em que acreditei que, no dia a seguir, haveria luz. E, embora me sobrassem dias para te sentir o calor, eu sabia: Todos os dias seriam sol posto, na contagem decrescente para um adeus sem retorno. O sol pusera-se para dar sombra à minha sepultura, talhada de dor sob as pedras da solidão.

Acordei para a desolação e o desalento. Disse que sabia que ias, olhando para os olhos onde já não havia sombra nem fantasma de felicidade. Aceitei, porque só isso pode fazer-se, a decisão da partida. E, mesmo depois, com prazo de validade estipulado, deixei que o meu corpo fosse teu outra vez, muitas vezes… e não as suficientes.

Morri.

Foste e eu morri. Respiro e ainda estou morta. Vou estar sempre morta. E tenho saudades tuas. Mas muito mais saudades desse último pôr-do-sol. Porque foi última vez em que acreditei que, no dia a seguir, haveria luz.






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