terça-feira, 19 de março de 2019

Racional




O ser humano. Racional. Porque só racionalidade se vê entre os humanos. Não há espaço para outra coisa. É o que nos separa dos bichos. O que nos torna superiores. O que leva o livro do génesis a mandar-nos reinar sobre tudo o que é natural. Temos isso. A racionalidade. Seja isso o que for.

Vivemos entre alertas e avisos. Não fumar. Não acender fogueiras. Não pisar a relva. Somos racionais. Inteligentes. Criamos as normas. Afixamos placas. Lemos os avisos. A nossa racionalidade é tanta que até conseguimos interpretar o que está por detrás das normas, placas e avisos. E tão inteligentes que fazemos a escolha de cumprir ou não, consoante a nossa vontade e prazer.

Em redor da nossa racionalidade há florestas queimadas, mares de plástico e glaciares líquidos. Em redor da nossa racionalidade, há espécies extintas e sangue jorrado a desporto. Em redor da nossa racionalidade, edifica-se sombra de sonho similar, fazendo de nós argamassa e lodo, aplaudindo a destruição que causamos.

Os Deuses taparam os olhos com as mãos. Eu faria o mesmo. Faltou a luz de Prometeu. E somos nós o fígado carcomido. Somos nós a pedra que amarra a esperança da sabedoria. Racionais. Que seres racionais são esses que precisam que lhes expliquem o óbvio e nem assim o entendem?

Há um toque racional na voz que grita em nome da Natureza. E irracionalidade no extremismo que logo se segue. Não conseguimos manter-nos estáveis sem um pé no caos. Como se nascêssemos para reinar, não sobre tudo o que é natural, mas justamente sobre a desordem das coisas. E não respeitamos o mundo porque não lhe entendemos a simplicidade clara da leveza. Essa coisa irracional de simplesmente estar e dar ao outro. De respirar e sentir que basta.

O ser humano. Racional. É o que nos separa dos bichos. Dos monstros. O que nos faz gente. Somar um mais um e não deixar ficar nada. Porque a inteligência é egoísta. E o raciocínio diz que o prazer imediato conta mais.

Um dia, a humanidade vai morrer. Teremos um espaço concreto e cheio de música, vazio de homens e mulheres e crianças. Um espaço irracional. E é com medo dessa irracionalidade que se fala do fim do mundo. Mas não. Não é o fim do mundo! É o fim da racionalidade tosca de um ser pensante. E um começo mais puro. Sem a destruição racional de quem continua a não entender a simplicidade da vida.

Os Deuses hão-de tirar as mãos da frente dos olhos e sorrir ao verde. Morreu o caos, dirão. Racionalmente. Como mandou o livro do Deus cego.








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