terça-feira, 9 de abril de 2019

E o amor que se...



Há neve nos recantos das praias dos meus pensamentos. Às vezes, imagino que é areia. Enregelam-me os pés nus, mas não faz mal. O frio é uma espécie de Inferno, tolhido na pele. Lembra que, algures, ainda existe uma capacidade moribunda de sentir. E talvez seja o melhor tipo de dor, porque chega aos ossos mas não à alma.

Vi muitos pores-do-sol contigo nesta praia. A do meu pensamento. Até teres metido o sol na mala e ido embora. Deixando-me as noites e a mágoa. A neve e a névoa. Voltaste para buscar a névoa, depois. Fica bem nas fotografias. Eu entendo.

Às vezes, quando caminho pelos destroços do que foi a minha cidade interna. Essa que culmina na praia do meu pensamento. E descubro que as ruínas foram violadas por bandidos selvagens. Há, pintadas nas paredes, pinturas rupestres que contam a história animalesca de um amor que morreu.

Como o amor não morre, alguém diz: e o amor que se foda. E eu espero bem que tenha razão. Que o amor se foda. E que, com ele, se fodam todos os sentimentos que ficaram por ele se ter, entretanto, provado unilateral e inútil. Que ele encontre o caminho certo para fazer isso mesmo: para se foder. Enterrado debaixo de toda essa neve que foi areia. Macerado debaixo de toda essa noite que foi pôr-do-sol.

Estou farta do amor. Cansada do amor. Com vontade de começar a despir camadas até o conseguir tirar de mim. Só que dispo camadas de derme e epiderme e músculo e osso. Dispo os ossos do tutano e o tutano de todas as suas estruturas adiposas. Dispo veias e artérias. E órgãos vitais. E o amor lá continua, sem eu saber bem onde se aloja ou como consegue sobreviver com tão pouco.

Merda. Sou toda feita de amor. Queria ser mais carne e razão. Mas não. Sou toda amor. Sou toda amor a dizer “e o amor que se foda”. E talvez seja por isso que quem se fode sempre sou eu.

Mas dói. O caminho de pés enregelados pela praia do meu pensamento, onde estruturas rochosas de memória relembram dias que não regressam. O caminho de pele seca pelas ruínas do que um dia foi um lar e agora é uma casa sem portas nem janelas, construída com silvas e correntes de ar.

O tempo passa. Os ponteiros da memória andam para trás. Os ponteiros da vida demoram duas horas a passar um décimo de segundo. Eu sufoco. Lá, dentro dessa cidade em ruínas e dessa praia de neve. Sufoco.

Cá fora, a moldura. Um sorriso. Está tudo bem. E contigo? Vazio, vazio, vazio. Espaços vazios numa manifestação eterna de felicidade. Está tudo bem. Mais um sorriso. Só quero desligar. Quero parar. Quero ir. E o amor que se…







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