terça-feira, 2 de abril de 2019

Dia das mentiras


Foto de Marina Ferraz | Modelo: Vanessa Oliveira


1 de Abril de 2019


Hoje parece-me um bom dia para dizer que não te amo. Não te amo. Podes dormir em paz esta noite. Não te amo. Podes abraçar outro corpo sem medo de teres cultivado um jardim que já não regas. Não te amo. Hoje parece-me um bom dia para dizer que não te amo.

O pássaro de asas cortadas que é o amor já não me mora no peito. Voou. Mesmo sem asas. Voou usando pós de dedaleira. Preparados com afinco num almofariz qualquer. Voou. E, assim de repente, sem esse pássaro moribundo e fétido na minha alma, eu descobri. Hoje. Não te amo. E é um dia excelente para to dizer. Que não te amo. Já não.

Hoje parece-me um bom dia para dizer que sou feliz. Sou feliz. Podes avançar pelas horas ciente do meu contentamento. Sou feliz. Podes sussurrar, em ouvidos alheios, palavras de amor, sem julgares que há lágrimas no lugar dos poemas dos meus olhos. Sou feliz. Hoje parece-me um bom dia para dizer que sou feliz.

O pássaro de asas abertas que é a felicidade pousou no meu ombro. Pousou na minha mão. Deu pequenas bicadas de entendimento na minha pele quente. E fez a noite mais brilhante. O meu sorriso mais puro. Pousando, disse-me que era livre e queria ficar. E eu disse-lhe. Fica, se quiseres. E ele quis. E foi assim, de repente, com esse pássaro livre na minha mão, que eu descobri. Hoje. Sou feliz. E é um dia excelente para to dizer. Que sou feliz. Agora sou.

Hoje, parece-me um bom dia para dizer que não quero desaparecer. Não quero desaparecer. Podes ir, descansado, sabendo que não passo o tempo da minha vida a desejar que ela acabe. Não quero desaparecer. Podes rir, de olhos semicerrados fixos num semblante que não seja meu, esquecendo-me até no permeio do riso. Não quero desaparecer. Hoje parece-me um bom dia para dizer que não quero desaparecer.

O pássaro de olhos vermelhos que é a esperança veio sentar-se aos meus pés, na calçada. Dei-lhe pequenos sóis cadentes em grãos de milho. E ele congratulou-se com a chuva de ouro alado que me fugia das mãos. Disse-me que ia ser um bom dia e que ia ficar tudo bem. Que também do meu céu cairiam sóis, um dia. E eu acreditei. Foi assim, de repente, com esse pássaro inebriado na luz do milho, que eu descobri. Hoje. Não quero desaparecer. E é um excelente dia para to dizer. Que não quero desaparecer. Agora não.

Hoje tenho muitas coisas para te dizer que sei que tu queres ouvir. Porque hoje é um dia em que a patranha cai bem e não causa alarde.

Mas tu sabes. Talvez ninguém o saiba como tu. Para ti, durante anos, este dia repetiu-se. Ciclo redundante, circular, que terminava e recomeçava nos teus lábios, cada vez que dizias que me amavas.

Por isso, deixa-me aproveitá-lo. O dia. Para te dizer que não te amo. Que sou feliz. Que não quero desaparecer.

Não te amo.

Sou feliz.

Não quero desaparecer.

Deixa-me dizer-te hoje.

Amanhã não posso.









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