quarta-feira, 1 de maio de 2019

Contestação


Autor da foto: Miguel Pião


Eles contestavam tudo. Até a contestação em si. Concordavam só com o desacordo e, mesmo aí, optavam por acautelar fogos de batalha de volta em vez, apenas para que não se dissesse que concordavam com alguma coisa. Não, eles não queriam concordar. Queriam bater-se, eternamente, inimigos. Mas também a isso diziam que não. Porque admitirem que se odiavam era, de alguma forma, sugerir que tivessem o ódio em comum. E não havia nada em comum entre eles.

Ele era símbolo de desapego. E ela dona da tenacidade. Ele, amante da rotina. Ela, senhora da inconstância. Se, de manhã, ele programava o horário; ela atirava-se às ruas. O lema dele era “prevenir”. O dela era “arriscar”. Quando amava, ele amava com peso e medida, até que outra porta se abrisse. Quando amava, ela queria a loucura de rebolões no colchão até cair da cama, e era para sempre.

Se tinham algo em comum – o que negavam – era apenas o facto de não terem nada em comum. Ele adorava cães, pela sua cumplicidade. Ela adorava gatos, porque lhes admirava a independência.

O passaporte dela devia ter tantos carimbos como o ticket de supermercado dele. E, à medida que ele listava nomes de amantes de passagem, ela somava um ou dois casos de fogo-fátuo. Mortos, é verdade, mas ardentes e inesquecíveis.

Numa noite de copos, ele tinha bebido duas cervejas, uma tequila e dois shots de absinto. Por esta ordem, já que todos sabem que, quando é para beber, o melhor para evitar a ressaca é avançar de bebidas fracas para as fortes. Ela tinha mandado a contagem para um lugar de palavras asneirentas e intercalara o que viera à mão. Ambos ébrios de bebida e cansaço, dançaram – com outras pessoas, evidentemente – a noite inteira, sem sequer se cruzarem.

Acabaram por chocar no centro da pista. Onde resmungaram por se verem. Sobre a maneira como o outro se movia. Sobre o estado parcialmente alterado do outro. E sobre a potencial teoria de que a Terra seja, afinal, plana.

Plano era o colchão em que se atiraram. E onde embateram um contra o outro, numa paixão de ódio desmedido. Acordaram abraçados. Ele desapegou-se da ideia do ódio. Ela pintou-o de forma tenaz, por impulso. Ele, fez dela rotina. Ela deu o nome dele às ruas. Ele preveniu-se de a perder. Ela arriscou apaixonar-se por ele. Ela foi a porta aberta dele. E ele a eternidade dela.

Ainda zonzos da bebida e da partilha dos corpos, nunca entenderam muito bem o que se passara. Desacordaram também sobre isso, tantas vezes que, entretanto, começam a surgir rugas e cabelos brancos no seu amor.

Dizem pelas ruas que eles não vai funcionar e eles concordam. Mas os gatos no parapeito parecem gostar de caçar a cauda dançante do cão dele. E ainda somam carimbos nos passaportes e no ticket de supermercado. Contestam a contestação. E discutem com frequência. Beijam-se a seguir. Fazem as pazes, despindo roupas e preconceitos.

Às vezes, precisam de um copo para superar o toque dos dedos da raiva quando discordam. Brindam antes de beber. Olhos nos olhos. E, embora não o admitam, não sabem viver sem o outro estar lá.






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