quarta-feira, 19 de junho de 2019

O cordel




Talvez, como tantas vezes me disseram, eu escreva literatura de cordel. E talvez essa literatura seja dura pela veracidade. Dúbia pela ficção que a permeia. Um pouco egoísta no jeito com que se encontra, preto no branco do papel. Sim. Talvez eu escreva literatura de cordel.

O cordel da minha literatura é o que me sustenta a alma. Ata-me os pontos dispersos. Às vezes com prosa, às vezes com versos mas sempre, sempre, com alento. É o que me ata a carne aos ossos e as unhas à pele perante o descontentamento da vida. E, se sigo, sem saber bem onde vou. Sem saber bem quem eu sou. Completamente perdida nessa ideia de um sonho que voou. É justamente porque tenho cordéis nos dedos da mão que escrevem em vez de se quedar no frio de uma eternidade adormecida.

A minha literatura é de cordel. Porque se fosse fio podia confundir-se com os tempos nos quais me toldaram de cansaços, movendo-me a bel-prazer, no sentido da crença inglória. Moveram-me, qual fantoche. Os pés, a alma e os braços. Até eu não ser ninguém. Até eu estar simplesmente, plenamente consciente, de ser o vilão de uma história.

Faço nós. Para prender a minha realidade aos solos ficcionados de um mundo que eu aguente. Porque a vida está difícil de gerir por entre o que me contam as redes sociais e os silêncios. Faço nós. A minha saudade e todos os meus estados de espírito são apenas um segundo que se arrasta por horas. E que vai, vida fora, a fingir que o tempo não passa nesse compasso. E eu penso. É verdade. E a verdade pode ferir. Mas uma literatura de cordel é melhor que uma literatura de laços que nos mente e é, depois, desapertada tão facilmente como se desencontraram as mãos do meu para sempre.

Talvez, como tantas vezes me disseram, eu escreva literatura de cordel. Um pouco como esses restos dilacerados nas redes das ruas, que implicitamente prenderam mantos ideológicos e partidários, apelando ao voto. Talvez eu escreva literatura de cordel. Não me importo. Se é ela que traz, com sangue, o apego à vida que me foge por entre dedos, nos espaços largados e esquecidos, lembrando-me dos tempos idos de criança, dos sonhos para amanhã, do que me sobra de esperança, agora que a esperança é vã.

É de cordel? Que seja! E se magoa, também ninguém obriga a que se leia. O meu cordel é tecido a duas mãos. Nasce no papel. Cria-me a teia. E nela adormeço. Inteira.

Talvez seja literatura de cordel. Gosto dela assim. Não é porque me suporte os sonhos. Nem porque me estenda a concretização. Mas, em alguns dias, une-me a mim. E é tudo o que me prende a alma ao corpo. E os pés ao chão.






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