terça-feira, 10 de setembro de 2019

A vala comum das mágoas

Fotografia de Analua Zoé 


Gosto de pensar que, na sucata que é a vida, o meu coração amontoado com todos os outros corações tristes não é só mais um, na vala comum das mágoas.

Eu sei que já lhe faltam bocados. E que, de tão lavado na esperança de que lhe saíssem as nódoas, ele começou a ganhar ferrugem, principalmente na aurícula esquerda, que deveria receber dos pulmões o ar que escasseia. E também sei que o pintei por cima, de forma nada bonita, para tentar esconder justamente o lado ferrugento das tentativas de salvar o que não tinha, como bem sabemos, salvação.

Mas ainda gosto de pensar, que, mesmo que esteja na vala comum das mágoas, o meu coração vale alguma coisa para alguém. Que ele ainda tem estofos confortáveis, onde uma ou outra pessoa possa sentar-se, de vez em quando. Mesmo que não permaneça.

Seria triste imaginar que o meu coração – que claramente já não serve para nada – viu esquecida toda uma história de vida. Por isso, quando penso no meu coração, na sucata da vida, na vala comum, tento imaginar que mais alguém, além de mim, sabe que as coisas quebradas também podem ser bonitas.

Eu acredito nisso. Que há uma beleza nas coisas quebradas. Sejam carros ou corações. Há uma beleza feita de ferrugem. Pelos quilómetros percorridos de mágoas. Uma beleza feita de cacos. Feita de caos. Feita de histórias. Uma beleza inusitada que fica entre tudo o que foi e tudo o que é. Como um fantasma de dias idos… mas melhores. Que ecoa. Contando uma história de vida.

Talvez o meu coração seja isso. O contador de histórias da sua vala comum. Talvez use os fogos do submundo para fazer uma fogueira, ao redor da qual se sentem corações e engrenagens inúteis – para o ouvirem contar a aterradora e horrível narrativa do amor.

Gosto de pensar que, na sucata que é a vida, o meu coração amontoado com todos os outros corações tristes não é só mais um, na vala comum das mágoas. Porque ele é isso. A história que viveu. Mesmo que a sua aurícula esquerda esteja particularmente ferrugenta e que globalmente se encontre sujo e destruído.

Há uma beleza nas coisas quebradas. E outros corações quebrados são, talvez, capazes de a ver. Mas desenganemo-nos. O carro sucatado não vai andar mais. Nem o meu coração vai sentir. Nem a maioria das pessoas poderá, alguma vez, ver beleza neles.

E, embora eu goste de pensar que, na sucata que é a vida, o meu coração amontoado com todos os outros corações tristes não é só mais um; na vala comum das mágoas, eu sei que ele o é. Todos os corações têm história. A do meu, é o esquecimento. Não houve amor que o reclamasse. Houve só amor que reclamasse dele. Morreu incógnito e só. Lançou-se à vala nessa condição. Não terá lápide que o identifique. Nem inscrição que conte que, em tempos, ele foi um bom coração.





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