terça-feira, 21 de junho de 2022

Deitada no chão

 

 


 Tenho dado por mim. Deitada no chão. A inspirar. A expirar. A sentir(-me).

 

 No último mês já me deitei no chão da minha casa e de casas que não a minha. Já me deitei em praias. Sobre a terra da mata. Na relva. Em teatros e até na sala de um velho casino.

 

Em tempos, deitei-me no chão, tentando perceber as sensações de um corpo sem sensações. Achei que, deitada no chão, ficava mais perto da morte. Porque é isso que as pessoas fazem. Não é? Morrem e são esquecidas num chão qualquer...

 

Mas os poetas – percebo agora – não são gente que se deite e morra. São sementes. E há muita vida semeada no chão onde me deito. Uma espécie de tranquilidade que brota do peito no sentir do solo. Como se toda a história do “eu” se enraizasse. Como se dela crescessem os brotos verdes do amanhã. E, aos poucos, estendessem os braços ao sol. E, aos poucos, fossem árvore da vida. E dessem flor. E dessem fruto. E eu sorvesse, desse fruto, o sumo da inspiração que me rega de sensações.

 

Em tempos, deitei-me no chão, tentando perceber as sensações de um corpo sem sensações. Hoje, deito-me nele para sentir. Em tempos, deitei-me no chão para simular a morte. Hoje, deito-me nele para viver a vida.

 

O chão é o mesmo. Mas eu não sou.

 

Mudei. É preciso aceitar que o corpo de ontem não é o corpo de hoje. Que as escolhas de hoje não serão as mesmas de amanhã. Que a diferença entre o querer e o não querer, o estar e o não estar... é um segundo. Deitada no chão, fecho os olhos. Porque tetos e estrelas povoam também a alma. E preciso de me olhar dentro, para crescer. De aceitar que mudar é processo. De entender que aprender dói... mas vale a pena.

 

Tenho dado por mim. Deitada no chão. A inspirar. A expirar. A sentir(-me). Viva. Com vontade de o estar. Viva. Derretendo os músculos no solo, até ser solo. Sentindo a acalmia da vida, misturada com o compasso retumbante do coração.

 

Dou por mim deitada no chão. Sei coisas que não sabia. Sobre magia, maioritariamente. Mas não só. E perguntam-me quando soube. Mas eu não sei quando soube. Deito-me no chão. Só por um minuto. Digo a mim mesma. Só por um minuto. A alma vagueia e retorna ao corpo. Quero estar viva. Mas os ponteiros enlouqueceram.

 

O tempo que passa para o mundo parou para mim. Largo o teto. Largo as estrelas. Perco-me de quem fui. Sou e estou feliz.

 

Em tempos, deitei-me no chão, tentando perceber como será estar-se morto. Hoje, deito-me nele para me estender no térreo de todos os meus sonhos novos.

 

E talvez eu tenha sabido aí. Por isso mesmo. Porque senti claramente as asas. E o céu no horizonte. E a liberdade de ser. E, sendo, me fez falta o chão.

 

 

Em tempos, deitei-me no chão, tentando perceber as sensações de um corpo sem sensações. Penso que ainda gostaria de saber. As sensações de um corpo sem sensações. Mas sinto. Profunda e inegavelmente. Não encontrarei esta resposta no soalho.

 

Descobrir essas coisas da morte leva tempo. E o meu tem parado muitas vezes... para me deixar viver em pleno, deitada no chão.



 Marina Ferraz





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