terça-feira, 30 de junho de 2026

O último livro

 


Volto a Saramago.

Saramago tem esse dom. O de nos fazer voltar, se acaso conseguimos sair... o que confesso difícil, no meu caso.

 

Nas mãos, o exemplar do seu último livro, Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas, ri-se inevitavelmente de mim. Tem a letra demasiado grande, as folhas demasiado grossas, ilustrações, três capítulos iniciais, passagens de diário do autor e duas notas de autores que se apresentam à luz do homem que conheceram e admiraram.

 

As notas de diário pessoal de Saramago afirmavam que o romance terminaria com a frase “Vai à merda”. Teria sido uma forma excelente de acabar o último livro. A morte teve outros planos. Tenho para mim que, lá pelos tempos de escrita d’ As intermitências, se tinha já apegado aos dotes deste filósofo intemporal, apaixonando-se pela música das suas palavras e pela sagacidade do seu pensamento. Terminei os três capítulos com amargura. Fica um luto lento no inacabado da história. O tal “Vai à merda” pendente... E, ainda assim, teria lido o produto inacabado nem que fossem três linhas. Três palavras. Uma frase que ficasse a meio.

 

Tenho saudades deste homem que não conheci. Sinto-me vista por este homem que não conheci. E, quando escrevo, é como se tivesse em mim ensinamentos que ninguém mais teve, mesmo sabendo que tantos outros terão agarrado as mesmas obras e sorvido a mesma sabedoria com igual sofreguidão.

 

Volto a Saramago.

Voltando, levo-vos comigo. Eu, escritora, a amar simultaneamente um mestre e a morte que o levou da pena. Eu, a assumir a minha pequenez ao lado desta figura que foi Nobel, mas cujo brilhantismo em nada se reduziria se o não fosse.

 

Para Saramago, lembra Fernando Gómez Aguilera, “A literatura é o que faz inevitavelmente pensar”. Aceito esse desafio, sabendo que talvez passe a minha própria vida à procura da obra que seja capaz de transformar algo ou alguém, gerando esse pensamento inevitável.

 

Num documentário que a Isabel me propôs, Saramago dizia que gostaria de ter as cinzas enterradas no jardim. Findo este livro, o que sei é que toda a sua literatura lhe é sepulcro. E é nela que deposito a minha homenagem, feita em flor de admiração. Os livros são pedras tumulares estranhas para almas visionárias. Ali as choramos. E, contudo, vivem.


Marina Ferraz



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terça-feira, 23 de junho de 2026

O ano em que morri

 

Imagem retirada do Pixabay

Durante anos e anos, o sonho. Peço que não me corrijam. Não era um pesadelo. Era um sonho. Se acaso a semântica vos importa, se quiserem ser puristas com as coisas da linguagem, permitam-me corrigir. Durante anos e anos, os sonhos. Muitos. Todos iguais na essência e, só por isso, para mim, singular.

 

O sonho era simples. 36. O sonho era um número de anos. O sonho era um número de velas. O sonho era uma profecia. 36. O sonho mostrava-me adulta, mesmo quando era criança. Adulta, mesmo quando era adolescente. Adulta, ainda há uns dias, agora que o sou. Uma noite aqui, outra além. Por vezes, dia sim, dia não. Por vezes, mês sim, mês não. O sonho pegava nesse eu de 36 anos e confrontava-o com uma única coisa. A morte.

 

Morri muitas vezes, nesses sonhos. Primeiro, acordava. Depois, deixei de acordar. Algures, tomei a consciência de que sonhava e brincava com as malhas do sonho, jogando com ele, sem conhecer os limites da vida e da morte, do dia e da noite. Conheci muitas balas, muitos precipícios, muitas cordas de forca. Acidentei-me dentro do meu carro e dos carros e motas de outros. Senti na pele quedas de avião e derrocadas e descarrilamentos. Sorvi venenos que me eram dados e cortes fundos em veias fundamentais, rasgadas por outros. Esses sonhos, que para mim são apenas um sonho, tinham em comum apenas duas coisas. Nunca era eu a autora da minha morte. Eu morria sempre.

 

Com os anos, confesso, comecei a fazer subtrações em vez de somas no momento de soprar as velas. Faltam dez anos. Faltam cinco. No ano passado... falta um.

 

Completo hoje um ano de convivência com a morte. Todos os dias, durante um ano, esperei o dia que me fosse o derradeiro, trazendo dentro uma pacífica aceitação que, apesar de tudo, vinha agarrada a pedrinhas de saudade. Hoje, faço 37 anos. E este ano, o que hoje termina, foi o ano em que morri.

 

Há muitas formas de se morrer. A minha, ao longo deste caminho que me levou dos 36 aos 37, não gerou convites para funerais, nem pediu lágrimas a ninguém. Ela levou-me a dizer coisas que talvez não tivesse dito e a fazer coisas que talvez não tivesse feito, pelo sim, pelo não. Neste caminho, tive muito orgulho de mim, mas desiludi-me muitas vezes com o mundo. Este trajeto matou-me alguns objetivos e muita da esperança que insistia em cravar dedos na alma. Matou-me pedacinhos de alma. Matou-me certezas infinitas e fez-me ponderar soluções que, anos antes, seriam impensáveis. Também me morreu, por aqui, a vontade de fazer o esforço. De ir, de estar, de falar, de correr atrás de coisas que me cansam, me reduzem ou me ignoram. Morreu um bocadinho a poesia que eu era, mas de uma maneira boa. Eu sempre fui mais prosa... e também morri um pouco para poder ser um mar de eus-personagem, justamente por isso. Diria que me morreu a fé no mundo e na paz... porém, talvez não tenha sido este ano. Penso que já não tinha essa fé, cadáver pesado e triste. Mas foi este ano que larguei esse defunto, para seguir mais leve. O mundo está como está. Mas eu não tenho de ser o mundo.

 

Sopro estas 37 velas. Depois do ano em que morri. Faço, em vez de um pedido, um elogio fúnebre, porque só eu sei o que passei. Eu, a gata, as minhas quatro paredes e, talvez, a minha mãe.

 

O que digo a esse fumo que se eleva? Isto: Tinhas razão. Eu morri com 36 anos. Até aqui foi vida (ou um sucedâneo qualquer). O que vier, agora, é lucro...

 

Tão certo, que até a AT foi informada. Parece que este ano recebo qualquer coisita de IRS.

Como escrevi naquele velhinho teste de História, num lapso que afinal parece fiel à verdade, enterrem-se os feridos e curem-se os mortos.


Marina Ferraz



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terça-feira, 16 de junho de 2026

Romance

 


Todo o romance começa com uma decisão!

 

Claro. Há a ideia. O ímpeto. A vontade. Mas, para que o romance comece a ser escrito, é preciso que se decida fazê-lo. A decisão é o compromisso. O vínculo. O momento crucial que garante a ação e tudo o que vem depois.

 

E se, ao pensarem em escrever um romance pensaram em romance... está na hora de dar uma má notícia. No campo dos relacionamentos, o romance está menos para amor e mais para casamento. E nem é um casamento muito bem-sucedido. É um daqueles casamentos padrão, que muitos de nós vimos mil vezes (e que dissuadiram alguns de nós de alguma vez vir a ceder ao ritual socialmente aceite, justamente porque não pareceu uma prisão muito saudável para se viver).

 

Quem sou eu para falar sobre escrever um romance? Bem... sou alguém que acompanha muitas pessoas que avançam gloriosamente na tarefa e que, saiba-se lá como ou porquê, achou que seria boa ideia tentar (ênfase no tentar!) escrever um também.

 

Por uma espécie de confidencialidade doutor-paciente (neste caso mentor-aluno) abstenho-me completamente de contar como são os desafios dos autores com quem trabalho. Mais! Garanto, desde já, que se alguma destas criaturas magníficas se identificar com o que se segue é apenas e só porque, quando dispo a docência e caio na condição de escritora, os desafios que encontro não são diferentes. E, bem diz a cultura portuguesa, casa de ferreiro, espeto de pau. Não sei seguir os meus próprios conselhos...

 

Ora, encontro no romance um parceiro complicado e um bocadinho tóxico. Em alguns dias, fica a olhar para mim com ar de gozo, como se tivesse uma nódoa na camisola ou uma borbulha na ponta do nariz. Não diz nada. Fica ali, a piscar os olhos (ou o cursor). Não anda nem desanda. Completamente inútil. Irrito-me. Estou para me levantar. E eis senão que... decide-se. A ideia. O jorro. Prisão magnética de dedos às teclas. Pensamento demasiado rápido para a velocidade das mãos, comendo sílabas às palavras. Que se dane! Depois corrijo. E, quando olho o relógio, estou atrasada.

 

Exausta, chego a casa e ali está ele. Nem me pergunta se quero jantar, se preciso de tomar banho primeiro. Nada. Faz-se notar. Arrasta-me para o seu assunto. Nem que seja para dizer o mesmo que já disse. Está a dizê-lo de outra maneira, pelo que lhe devo atenção. De repente, é um fora de horas muito fora de horas. Tenho de ir dormir. Digo-lhe. E ri-se. A sério, tenho mesmo. Hoje não dá, estou cansada e dói-me a cabeça. Ele não quer saber das minhas desculpas. Não me obriga a que o escreva, mas também não me deixa dormir. Discorre. Discursos intermináveis. E perguntas que, mesmo quando ele adormece, me deixam acordada. Será que estamos bem? Será que ele está bem? E se não estiver?

 

Perco a noite a pensar sobre isto. Mas é tarde. Não lhe dei a resposta que queria. Não lhe dei a resposta quando queria. Amuou. Agora não quer nada comigo. Bem que posso estar à frente do raio da folha de texto o tempo que me apetecer. Nem um pontito. Faço um dedilhar de teclas só para me iludir, com o som. Sai algo digno de Nobel, tipo kjadshukafhladhli qdohudh ukhfe dedkiqui. Há muita filosofia ali. Pena que vocês não falem esta língua... e eu também não.

 

A casa está suja porque só eu é que limpo. Há pouca comida no frigorífico porque só eu é que vou às compras. As olheiras afundam-se nos olhos. Dou por mim a ter uma conversa com o romance.

 

– Meu querido, nós temos que acabar-te um dia... – noto que se assusta.

– Nós temos que acabar?

– Não, idiota, nós temos que acabar-te...

 

Mas ele não é muito cooperativo.

Por exemplo, no documento word ao lado daquele em que escrevo este texto, tenho o simbolozinho – este | , o do cursor – a piscar. E estou aqui, a fazer o que vejo outras pessoas a fazerem quando o marido é um inútil que não faz nada, não as deixa fazer nada e não as deixa dormir: queixar-me.

 

Em suma, acho muito corajoso quando uma pessoa toma a decisão de sair da sua rotina para escrever um romance. Porque escrever um romance é muito pouco romântico. Damos por nós a viver duas vidas e a não descansar em nenhuma delas. Tudo porque houve a ideia. O ímpeto. A vontade. Sabíamos de antemão que ia ser duro! Mas abrimos um documento e deixámos que o romance nos escrevesse a nós...

 

E, agora, vou deixar isto no blog e abrir o documento vizinho, que provavelmente estará amuado com a interrupção e, por isso, não me dirá nada até sabe-se lá quando...

  

Marina Ferraz



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terça-feira, 9 de junho de 2026

O arquivo de inexistências

 

Imagem do Pixabay

A funcionária dedilhava cegamente no computador. Não parecia que o movimento dos dedos servisse para mais do que preencher a sala com o eco dos batimentos cardíacos das teclas. Não levantava os olhos das próprias mãos. Um sinal claro de enfado, já que parecia alhear-se até da vida. Tinha o ar fantasmagórico de quem estava ali por estar. Aclaro a voz para chamar a sua atenção e estendo-lhe o post-it amarelo onde escrevera a referência. VAN-NIS-89. Contrariada, ela agarra o papel e aponta-me o dedo ossudo para um corredor poeirento.

 

– Secção de Vantologia, é uma das prateleiras centrais, depois da Narratofonia e antes do Nulitário. Não há que enganar.

 

Agradeço. Mas teria preferido que viesse comigo. De todas as vezes que visito o arquivo acabo por perder vários dias, neste emaranhado de corredores e corredorzinhos intermináveis. Ossos do ofício, penso. Uma resignação que não diverge muito da de todos os funcionários do país, com trabalhos mais convencionais.

 

O arquivo das inexistências guarda os materiais sobre todas as recordações de vidas nunca vividas. Avanço por entre os catálogos de História que narram todos os não-acontecimentos, passo pelos registos fotográficos de todas as pessoas que nunca existiram, arrepio-me junto das prateleiras de todas as promessas que nunca foram feitas ou que, sendo, nunca foram cumpridas. Há gavetas entreabertas, com aranhas vivas, que fizeram teia nos conceitos decadentes de todas as escolhas que não foram tomadas e de todas as conversas que não se tiveram. Num canto, vejo os alfarrábios com as narrações extensas dos amigos imaginários e sei que estou a chegar à secção certa. Finalmente. Pode ser que não me perca, desta vez!

 

Vantologia. Aqui está ela! Graças! Não direi a Deus, porque provavelmente, se bem o conheço, também mora no meio desta confusão de corredores. Talvez ele seja esta confusão de corredores. N, N, Na, Ne, Ni... vou dizendo isto em voz alta, com a voz comida, aniquilada pelo Nada. Nulitário. Aqui estás tu. 81... não... ah, 89! Tiro o vácuo da prateleira que abraça os ficheiros dos segredos de todas as personagens não escritas. Sopro o pó, que se transforma em névoa fina e alastra um frio serrano pelos meus ossos. Encontro o teu nome e a tua história. Cumprimento-te. Beijas-me na boca, como quem me sopra inspiração para os órgãos. O meu coração acelera e eu dissolvo-me no espaço, para acordar na minha cama e correr para o computador.

 

No eco das teclas do meu computador, entro em trabalho de parto e nasces.

Agora existes. Só para mim.

O teu nome desaparece desse arquivo.

 

Bem-vinda sejas ao mundo!


Marina Ferraz



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terça-feira, 2 de junho de 2026

Nem por isso

 

Imagem do Pixabay

 

Já não há. Nem estrelas no céu, nem no mar, nem nos olhos. Parece que alguém andou por aí, a apagar o brilho dos astros e das ondas e dos sonhos alheios. Senhores, tenham dó de quem caminha neste mundo. A voz sai-me pesarosa e densa. Chamam-lhe melodrama, mas não me ouvem. Recomendam uns ansiolíticos orais. Eu recomendo que os usem como supositório.

 

As estradas agredidas estão danificadas. Umas pelas chuvas, outras pelos ponteiros. As piores são as que se danificaram com as bombas. Mas não conduzo nelas. Há sempre alguém a meter betão nos olhos de quem acompanha a notícia ao longe, tentando tapar com matéria inócua os espaços onde poderiam proliferar culturas de pensamento ou, pior ainda, pensamentos com cultura. Senhores, tenham dó de quem entende este mundo. A voz sai-me pesarosa e densa. Chamam-lhe esgotamento, mas não me ouvem. Recomendam uns reality shows. Eu recomendo que os usem como supositório.

 

Um animal novo chamado ódio. Come empatia ao pequeno-almoço e arrota barbaridades até à refeição seguinte. Repete. Ora enlatando entre os dentes a bondade, ora a compaixão, ora o bom-senso. Rói tudo com gula e vomita-se a si mesmo. Há poças de ódio cuspido em todo o lado. Senhores, tenham dó de quem não quer estar só neste mundo. A voz sai-me pesarosa e densa. Chamam-lhe woke, mas não me ouvem. Recomendam-me a obediência cega. Eu recomendo que a usem como supositório.

 

O mundo é dos senhores. É o que dizem. Entre eles e os que querem estar no lugar deles há o espaço de muitas pobrezas. Uma miséria mais pesarosa e densa que a minha voz. Senhores, não tomaria o vosso lugar nem que pudesse... Chamam-me anomalia. Riem. Recomendam-me que aprenda outra anedota. Eu recomendo que usem esta, mas como supositório.

 

Estou cansada. O hoje é o ontem que tínhamos lutado para matar. Sobreviveu ao coma. De repente apagaram as estrelas, há estradas agredidas, um animal chamado ódio e uma casa senhorial que é o mundo. Mudou tudo. Eu, nem por isso.

 

E, por isso, sugiro que peguem em toda essa tirania e a usem como supositório também!

  

Marina Ferraz



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