terça-feira, 26 de maio de 2026

Longo caminho longo

Imagem do Pixabay


Foi um longo caminho até chegar a ti.

 

A culpa provavelmente foi minha. Saí em busca da felicidade. Meti-me pelas estradas sinuosas e os trilhos barrentos, levando às costas o que julguei ser essencial. Uma trouxa grande e pesada, com densos sonhos impossíveis, conceitos rochosos, memórias de aço forjado na crítica dos outros, alfarrábios que listavam cada um dos meus defeitos e falhas. A bagagem obrigou-me a parar tantas vezes como a meteorologia. Choveu sempre que precisei de sol. Fez sol sempre que não havia árvore que me prestasse o cuidado de uma sombra.

 

Quando te caí aos pés e caridosamente me perguntaste onde ia, eu já não me lembrava. Tiveste pena de mim. Ia mais suja do que o chão. Molhada da chuva e queimada do sol. Cheirava a todos os trilhos que percorrera. Pesava menos do que a carga que trazia. Perdoaste-me a falha de ser gente a arrastar sonhos e deste-me água que me banhasse, um farnel de cuidado e abrigo, lençóis limpos, que cheiravam a promessa. E mãos. Deste-me mãos que me libertaram do peso das trouxas e das roupas e das preocupações. Que se enrodilharam nas minhas, para que os dedos achassem o conforto das promessas em anéis de carne e unha.

 

Fora um longo caminho até chegar a ti.

 

Quando cheguei, achei que tinha chegado. Esqueci o teu nome antes de o saber e chamei-te casa, por não saber chamar-te outra coisa. Ali, fui enchendo novos sacos de densos sonhos impossíveis, conceitos rochosos, memórias de aço forjado na tua crítica, alfarrábios que listavam cada um dos meus defeitos e falhas. Sabia que a bagagem já pesava, mas ignorei-a. Só pesaria, pensava eu, se a carregasse. E havia um teto e paredes e dedos que eram anéis e promessas.

 

No dia em que me puseste a bagagem ao ombro, com um beijo na testa, eu saí para as estradas sinuosas e os trilhos barrentos. Mas o sinuoso das estradas era mais grave e o barro mais pútrido. E eu queria ardentemente encontrar o caminho para o ponto de partida, que eras tu, porque não me lembrava do destino original nem de nenhum outro.

 

Mas só podia andar em frente. E fui.

 

Tinha sido um longo caminho para chegar até ti.

Tinha sido confortável chegar a ti.

 

Mas, um dia, quando me caí aos pés e caridosamente me perguntei onde ia, olhei-me e não tive pena de mim, mas compaixão. Perdoei-me a falha de ser gente a acreditar nos sonhos que carregava e dei-me a força de erguer as minhas próprias paredes e o meu próprio teto ali mesmo, no caos.

 

Foi um longo caminho para chegar a ti. E um ainda mais longo para chegar a mim.

 

Agora que cheguei, já me lembro.

Tinha saído em busca da felicidade.

 

Incríveis os caminhos tortuosos que fazemos para encontrarmos algo que, afinal, sempre esteve em nós.


 Marina Ferraz



Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!




Se quiserem adquirir o meu livro "[A(MOR]TE)" - agora na 2ªEdição

enviem o vosso pedido para marinaferraz.oficial@gmail.com

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Interruptor

 

Imagem do Pixabay

Há um berbequim algures, num dos prédios mais próximos. E chega a recolha do vidro. Os pneus dos carros raspam o alcatrão seco. Alguém buzina ao idiota que estacionou mal e lhe travou saída. Entenda-se que é também o buzinante homem que chama idiota ao outro. Eu nada sei de um ou do outro. O subir e descer do elevador faz-se com um canto engolido, uma espécie de sopro audível, pacato, que talvez se entranhe nos silêncios pela familiaridade. Mas, em dias como o de hoje, o canto engolido parece um grito. E cai mais uma viga de metal. E passa o comboio, num continuado roçar pela linha. O vento assobia. E há um grito do trabalhador que põe a cabeça de fora da janela para alertar o outro, de pé junto ao carro mal estacionado, com um calão feito de palavras bem portuguesas.

Fecho a basculante da janela, como que para insonorizar a alma. Por favor, calem-se.

 

Hoje está sol e não morreu ninguém. Tive pouco trabalho. Saí e fiz a minha vida. Estive com algumas pessoas e todas me trataram bem. Levantei-me às horas que quis. Comi às horas que bateu a fome. Cheguei para o felpudo abraço da minha gata. E estou cansada. Estou exausta.

 

Ouço o inaudito conselho que me daria qualquer pessoa. Anima-te. Sorri. Se não se passa nada, por que estás assim? Há tanta gente pior do que tu.

 

A famosa ditadura da felicidade.

 

Eu não sei responder. Para saber responder seria essencial saber duas coisas que não sei: como estou... e porquê.

 

Hoje, acordei com falta de mim e excesso de mundo. E, enquanto tudo lá fora grita e se move, eu só quero aninhar-me e aproveitar esta arte (que deve ser só minha) de não sentir nada. Um vácuo, um vazio.

 

O interruptor que me desliga parece ligar o mundo no volume máximo.

 

Por favor, alguém silencie o mundo para eu poder descansar.

 

Talvez amanhã acorde no meu estado normal. Com excesso de mim. Para virem os doutos dessas coisas do coração dizer-me outra vez que eu não conheço os meios-termos, que sou em demasia, que...

 

Tenho o interruptor avariado. Mais vale não mexer, para não danificar mais.

 

Mas, por favor, alguém silencie o mundo.

 

Ou, pelo menos, alguém tire o carro mal estacionado, que outro condutor está a começar a irritar-me...


 Marina Ferraz



Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!




Se quiserem adquirir o meu livro "[A(MOR]TE)" - agora na 2ªEdição

enviem o vosso pedido para marinaferraz.oficial@gmail.com

terça-feira, 12 de maio de 2026

Mundo cão

Imagem do Pixabay

 

“Ah, este mundo a que alguns chamaram cão. Os cães, decerto, lhe chamariam homem.”

José Saramago

na crónica «C’est la rose...» em “Deste Mundo e do Outro”

 

Caiu uma bomba. Mas eu acordei e estava viva. A bomba deve ter sido noutro corpo. Então, levantei-me, escovei os dentes, agarrei o pão que o diabo amassou na véspera, duro como o dia que precedeu o dia duro que se aproxima.

Saí para render. Para me render. Porque é preciso renda que sustente o febril e fabril capital. A capital ia nos passos escravos da era da escravatura abolida. Na ida, a bola ocupava as conversas de almas mudas, às quais faltava o tempo e o vocabulário para outras sentenças, sentenciados que estavam à rotina das grades abertas da rua. Mais tarde, outras grades. Quando pesassem as sentenças. As da cerveja, no café da rua onde se junta quem se cansou do cansaço, debaixo dos rumores de uma caixa retangular onde cabe o mundo dos outros. E pobres outros! Esses outros nos quais caiu a bomba e que não se ergueram de manhã porque estavam mortos. Pobres mais pobres que nós. E talvez, afinal, a nossa pobreza nem seja tão má à luz desta. Talvez, afinal, haja razão para fazer a festa.

 

Esmago as mãos na pressão das contas que caem no correio eletrónico. Melhor do que a cadeira elétrica, suponho. Mas depois penso... pelo menos estaria sentada. Pelo menos dar-me-iam algo em que cerrar os dentes e deixar-me-iam gritar para dentro. Ninguém se ofenderia por me ouvir dizer que tenho medo do dia. No dia da nossa morte estamos autorizados a ter medo. Sobra-nos isso. Sermos reduzidos a poeira para, em poeira, descobrirmos que nunca fomos outra coisa. Uma espécie de pó de talco que alguns puseram nas mãos para não escorregarem no sangue de quem os serve enquanto escalam os seus muitos milhões de mortos, na montanha do alegado sucesso.

 

Somos as pedras e as perdas e o pó. E este é o mundo. Aceitemos este caminho, que nunca houve outro, dizem vozes anciãs dos cegos. Todos os velhos que trazem as velhas palavras são cegos. Quem vê, morre. Quem vê, deixa-se morrer. Quem vê, quer morrer. E, se não morre, nem se deixa morrer e, por loucura, morrer não quer... alguém o mata. Toda a sabedoria da aceitação cabe aos cegos.

 

Um dia, nave que nos leve será salvação e terá tudo valido a pena. Os olhos que treinam para a cegueira olham o céu e questionam, por fim, alguma coisa. Preocupam-se, por fim, com alguma coisa. Haverá vida noutro lugar deste universo?

 

Eu levo o universo. Um verso. Só um. Um verso de uma palavra. Dor.

 

No fim, a bomba atinge-me. Era inevitável...

 

Tanta gente preocupada, a perguntar-se se há vida noutros planetas. E eu, aqui, preocupada, a perguntar-me se há vida neste.

 

É assim que morro, me deixo morrer ou me matam... falhei na arte de aprender a ser cega.


 Marina Ferraz



Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!

terça-feira, 5 de maio de 2026

Terapias

 

Luar na lágrima - Marina Ferraz

Canso-me de estar cansada. E a folha branca, de repente, não quer frases e poemas e histórias. Raios! Raios para ela... agora deu em ter vontade própria! Seja feita a sua vontade...

 

 Frases. Poemas. Histórias. Tudo isso me ocupa a mente. Uma mente, diga-se de passagem, já bem ocupada pelos livros, os problemas, o trabalho e o mundo. Sinto-me quase sempre numa espiral de cansaço. Freneticamente passando de uma tarefa para outra – diz a Isabel que leu algures que “descansar não é só não fazer nada, mas também mudar de atividade” – mas passo de trabalhar em textos alheios para clientes para a escrita das minhas coisas; dessa escrita para a leitura; da leitura para as aulas; das aulas para as notícias. E... estou exausta. Às vezes só noto que estou exausta quando me deito. Porque não me lembro de me deitar. O corpo que aterra no colchão já vai adormecido... Acorda-o, na manhã seguinte, o despertador. Eu não sinto que carregue no “desligar”, nem no “snooze”. Carrego num terceiro botão, inexistente, que diz “repeat”. E saio para cumprir o mesmo dia, qual atleta de ginástica acrobática mental, treinando os mesmos saltos de tarefa em tarefa em tarefa. A última é esta. Sento-me em frente ao computador e abro o Word. A folha branca, de repente, não quer frases e poemas e histórias. E, lá longe, no esquecido cavalete, outra me chama.

 

Apresento-vos alguns dos meus terapeutas. Papel, tinta, pincéis. O cavalete não. Ele é uma espécie de secretário que atende chamadas e anota as datas das consultas. Só serve mesmo de ornamento. Agarro as folhas no colo. As folhas e as tintas são o fundamental. Os pincéis ajudam, claro, mas são rapidamente substituídos pela ancestral tecnologia dos dedos. Atiro-me à arte de pintar sem fazer da pintura arte. Tenho zero técnica e zero empenho. Gosto assim! Sou a miúda da creche a fazer experiências com tinta de óleo comprada na loja dos chineses. Faço borrões na folha e saio daí para uma imaginação livre de referências e com uma falta de critério que arrepiaria qualquer artista plástico. Nunca tenho ideia do que quero pintar e nunca acabo uma pintura sem ser, eu própria, uma pintura. Quando eu pinto há tinta no papel, nas mãos, na roupa... e se a gata, o sofá e as paredes estiverem livres de tinta, é por sorte.

 

Lembro-me de ter gostado da praxe académica – ou parte dela, pelo menos – por me permitir ser criança quando já não o era. Porque era fácil não pensar. Hoje, a minha terapia são as tintas. Este fazer sem querer fazer bem, sem me importar com perfeições, sem ter ideias claras sobre o que quero construir ou o que quero ver no final. É como estar acordada com o cansaço a dormir. É pôr a vida no dito “snooze”.

 

Depois, duas ou três almas caridosas olham para os meus borrões e elogiam-nos. E eu agradeço, mas recuso as maravilhas que dizem encontrar nas imagens. Porque as imagens são só o reflexo da minha necessidade de reclamar um pouco de vazio num mundo que está demasiado cheio de pensamentos e estímulos. Se um dia fizer a exposição que a minha mãe tanto quer, não poderei pendurar o que de mais bonito fica desta terapia: o vazio mental. Mas, se o fizer, para compensar, prometo as unhas encardidas de tinta e quadros muito imperfeitos, feitos ao colo.


 Marina Ferraz



Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!




Se quiserem adquirir o meu livro "[A(MOR]TE)" - agora na 2ªEdição

enviem o vosso pedido para marinaferraz.oficial@gmail.com