Foi um longo caminho até chegar a ti.
A culpa provavelmente foi minha. Saí em busca da felicidade. Meti-me pelas estradas sinuosas e os trilhos barrentos, levando às costas o que julguei ser essencial. Uma trouxa grande e pesada, com densos sonhos impossíveis, conceitos rochosos, memórias de aço forjado na crítica dos outros, alfarrábios que listavam cada um dos meus defeitos e falhas. A bagagem obrigou-me a parar tantas vezes como a meteorologia. Choveu sempre que precisei de sol. Fez sol sempre que não havia árvore que me prestasse o cuidado de uma sombra.
Quando te caí aos pés e caridosamente me perguntaste onde ia, eu já não me lembrava. Tiveste pena de mim. Ia mais suja do que o chão. Molhada da chuva e queimada do sol. Cheirava a todos os trilhos que percorrera. Pesava menos do que a carga que trazia. Perdoaste-me a falha de ser gente a arrastar sonhos e deste-me água que me banhasse, um farnel de cuidado e abrigo, lençóis limpos, que cheiravam a promessa. E mãos. Deste-me mãos que me libertaram do peso das trouxas e das roupas e das preocupações. Que se enrodilharam nas minhas, para que os dedos achassem o conforto das promessas em anéis de carne e unha.
Fora um longo caminho até chegar a ti.
Quando cheguei, achei que tinha chegado. Esqueci o teu nome antes de o saber e chamei-te casa, por não saber chamar-te outra coisa. Ali, fui enchendo novos sacos de densos sonhos impossíveis, conceitos rochosos, memórias de aço forjado na tua crítica, alfarrábios que listavam cada um dos meus defeitos e falhas. Sabia que a bagagem já pesava, mas ignorei-a. Só pesaria, pensava eu, se a carregasse. E havia um teto e paredes e dedos que eram anéis e promessas.
No dia em que me puseste a bagagem ao ombro, com um beijo na testa, eu saí para as estradas sinuosas e os trilhos barrentos. Mas o sinuoso das estradas era mais grave e o barro mais pútrido. E eu queria ardentemente encontrar o caminho para o ponto de partida, que eras tu, porque não me lembrava do destino original nem de nenhum outro.
Mas só podia andar em frente. E fui.
Tinha sido um longo caminho para chegar até ti.
Tinha sido confortável chegar a ti.
Mas, um dia, quando me caí aos pés e caridosamente me perguntei onde ia, olhei-me e não tive pena de mim, mas compaixão. Perdoei-me a falha de ser gente a acreditar nos sonhos que carregava e dei-me a força de erguer as minhas próprias paredes e o meu próprio teto ali mesmo, no caos.
Foi um longo caminho para chegar a ti. E um ainda mais longo para chegar a mim.
Agora que cheguei, já me lembro.
Tinha saído em busca da felicidade.
Incríveis os caminhos tortuosos que fazemos para encontrarmos algo que, afinal, sempre esteve em nós.
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