Há um berbequim algures, num dos prédios mais próximos. E chega a recolha do vidro. Os pneus dos carros raspam o alcatrão seco. Alguém buzina ao idiota que estacionou mal e lhe travou saída. Entenda-se que é também o buzinante homem que chama idiota ao outro. Eu nada sei de um ou do outro. O subir e descer do elevador faz-se com um canto engolido, uma espécie de sopro audível, pacato, que talvez se entranhe nos silêncios pela familiaridade. Mas, em dias como o de hoje, o canto engolido parece um grito. E cai mais uma viga de metal. E passa o comboio, num continuado roçar pela linha. O vento assobia. E há um grito do trabalhador que põe a cabeça de fora da janela para alertar o outro, de pé junto ao carro mal estacionado, com um calão feito de palavras bem portuguesas.
Fecho a basculante da janela, como que para insonorizar a alma. Por favor, calem-se.
Hoje está sol e não morreu ninguém. Tive pouco trabalho. Saí e fiz a minha vida. Estive com algumas pessoas e todas me trataram bem. Levantei-me às horas que quis. Comi às horas que bateu a fome. Cheguei para o felpudo abraço da minha gata. E estou cansada. Estou exausta.
Ouço o inaudito conselho que me
daria qualquer pessoa. Anima-te. Sorri.
Se não se passa nada, por que estás assim? Há tanta gente pior do que tu.
A famosa ditadura da felicidade.
Eu não sei responder. Para saber responder seria essencial saber duas coisas que não sei: como estou... e porquê.
Hoje, acordei com falta de mim e excesso de mundo. E, enquanto tudo lá fora grita e se move, eu só quero aninhar-me e aproveitar esta arte (que deve ser só minha) de não sentir nada. Um vácuo, um vazio.
O interruptor que me desliga parece ligar o mundo no volume máximo.
Por favor, alguém silencie o mundo para eu poder descansar.
Talvez amanhã acorde no meu estado normal. Com excesso de mim. Para virem os doutos dessas coisas do coração dizer-me outra vez que eu não conheço os meios-termos, que sou em demasia, que...
Tenho o interruptor avariado. Mais vale não mexer, para não danificar mais.
Mas, por favor, alguém silencie o mundo.
Ou, pelo menos, alguém tire o carro mal estacionado, que outro condutor está a começar a irritar-me...
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Um texto fabuloso que tocará muita gente, acredito! Eu pessoalmente adorei.
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