terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Dilemas maternais


Parabéns. Não vais ser pai. Não vais ser avó. Não vais ser tio. Não vais ser madrinha. Recebe esta nota com agrado. Não vais. Não vais ser a pessoa a bordar fraldinhas. Não vais ser a pessoa a levantar-se a meio da noite. Não vais ser o desencaminhador. Não vais ser a pessoa a espetar os polegares nas bochechas bolachudas da minha criança. Convido-te, por isso, a celebrar comigo.

Não julgues que vens celebrar a minha loucura. Vens celebrar a minha liberdade. A minha feminilidade liberta de preconceitos e de normas que me fez dizer que é tão válido não querer ter filhos como querer ter uma equipa de futebol a correr e a fazer tropelias pela casa. Não. Não fiques chocado. Sou mulher. Não quero ser mãe. E estou farta de ouvir as frases desusadas, fora de época e recheadas de preconceito e falta de aceitação. Estou farta do "ainda és nova, tens tempo". Estou farta do "isso é agora". Estou farta do "eu também disse isso e...". Não! Eu não quero ser mãe. E tenho tanto direito de não querer como qualquer outra pessoa tem de o querer.

Incomoda-me particularmente quando me dizem "Isso é se o teu companheiro não quiser ser pai". Porque é que ele pode querer não ser pai, se eu não posso querer não ser mãe? E porque é que ele querer ser pai havia de mudar a minha opinião? Porque é que a opinião ou vontade dele valem mais do que a minha?

Questões. Questões que me moem por dentro, no lugar onde não há-de crescer nenhum feto até se fazer gente. Questões que me dão dores de parto constantes sobre o futuro desta sociedade tão avançada que continua agarrada às noções da idade do bronze.

Quando me dizem "quero ser mãe", não costumo dizer "isso passa-te". Não costumo dizer "isso vai destruir a tua vida". Não costumo dizer "o que está errado contigo?". Costumo sorrir. Aceitar a beleza que é alguém querer gerar outro ser, criá-lo, fazer dele gente. E, quando acontece, costumo fazer desenhos fofinhos e pedir que os bordem em babetes com fita de bibe da cor que julgo mais interessante ou adequada. Costumo estar presente em batismos. Dar os parabéns depois dos partos. Oferecer a ajuda quando necessária. É uma escolha que aceito, em toda a sua plenitude.

Não querer ser mãe não quer dizer que não concordo com a maternidade. Quer apenas dizer que eu não a quero para mim.

Mas, de alguma forma, a minha escolha ofende as pessoas. Dizer que não quero ser mãe parece atacar directamente toda a gente que foi, é ou quer ser berço do futuro da humanidade. E eu questiono. O que é que, na minha escolha de mulher adulta e informada que conhece as opções e decide pela sua cabeça assusta tanto?

Não sei a resposta. Não saber, incomoda. Incomoda-me. Como incomoda os outros essa escolha que tomo e que sei, no mais profundo de mim, não ter espaço para a mudança. Essa escolha permanente que me rotula, entre outras coisas, como "louca", "egoísta", "maluca", "leviana" e mais umas quantas palavras de teor mais ofensivo e que dispensam enumeração.

Ofereço a mim mesma a escolha e a todos os outros o convite. Venham celebrar comigo. Não estou grávida nem quero estar. Não sou mãe nem quero ser. Venham celebrar. Não o afastamento da maternidade. Não a minha opção. Venham celebrar a liberdade de escolha.

Ser mulher, tal como ser homem, significa ser pessoa. Ser gente. Uma mulher não tem de ser mãe. Uma mulher não tem de ser nada que não queira. E espero que um dia, em breve, a sociedade dê à luz esta ideia... e seja mãe de uma nova era.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet e editada por MF

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10 comentários:

roshy disse...

Belo texto!

Susana Sousa disse...

Bem, ainda não sei se quero ou se não quero. Há tanto que quero fazer e planear antes de tomar essa decisão. Ser mãe é genuíno, mas ser mãe é ser tudo para alguém. Se todas as mães fossem boas mães e se todos os pais fossem bons pais e se o mundo fosse um bom lugar para dar a um filho, com certeza teria menos dúvidas. Não se dever tecer comentários sobre filhos/namorados/maridos que ainda existem ou não vão existir. Essas perguntas são desagradáveis e tecem pressões nas vidas dos recetores.
Gostei do seu texto!

Sílvia Caseiro disse...

Gostei muito do texto. Penso que ainda tem de se percorrer um longo caminho para que a sociedade comece a mudar a mentalidade em relação a este assunto.

Nídia Solange disse...

Ser Mãe é o melhor do mundo e o único momento em que finalmente no realizamos como mulheres.

Maria Costa disse...

profundo...

BelaLinha disse...

Cada um é livre de tomar decisões sobre a sua vida, sobre o seu futuro!

Adorei o teu texto!

rita martins disse...

adorei, os meus parabens :)

Magui disse...

Fantástico texto, demonstrativo da liberdade de cada um. Parabéns

Alexandra Guimarães disse...

Muito bom. Cada um de nós tem o direito de fazer as suas próprias escolhas.

Jennyfer Aguillar disse...

Discordo da Nídia em seu comentário,afinal a maternidade é um passo da vida da mulher,mas não é a única coisa que a fará sentir realmente mulher.Todas nós temos escolhas,se escolhes não ser mãe,quem somos nós para julgar uma escolha que só cabe a ti.
Eu,particularmente quero ser mãe,sentir alguém tão pequenino crescer em mim,mas não vou ficar apontando o dedo e dizendo que se não for mãe "vais perder tua vida","vais viver em vão",por não acredito que vá.
Penso é que melhor não ser mãe,do que se arrepender de ter um filho quando vier a nascer.
Amei o texto <3
Beijinhos Jenny ^.^