quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Mudou tudo



Mudou tudo.
A manta está desarrumada. Pousada, como sempre, nas costas da poltrona. Descaída para um lado. Torta. Por dobrar. A manta está desarrumada. Apetece-me agarrar nela, rasgá-la em pedaços, queimá-la. Arrancá-la das costas da poltrona onde sempre a pousámos, julgando que a arrumávamos. Não! A manta está desarrumada. A poltrona não é lugar de manta.
Mudou de tudo.
Os móveis estão fora de sítio. Velhos e gastos da permanência imutável junto às mesmas paredes. A madeira pesa. Tento arrancá-los do lugar. Não se movem. Os móveis estão fora de sítio. Apetece-me reduzi-los a cascalho e varrê-los. Sei que julgámos que estavam bem ali. Mas não estão. Estão fora de sítio. Qualquer um veria com facilidade: estão dispostos erroneamente. Não fazem sentido nem ficam bem.
Mudou tudo.
A roupa está mal passada. Mal dobrada. Atolada nas gavetas demasiado cheias. Está engelhada, como sempre. Agarro nela, deito-a ao chão. Fica melhor no chão do que na gaveta onde fingia ter sido bem arrumada e passada a ferro.
Mudou tudo.
A louça não está bem assim. Empilhada, distribuída, na sua quietude de anos que lhes determinaram que era assim que estava bem. Não está. Está desalinhada, desorganizada. Não me traz sentido de estética ou de prática. E quero agarrar nela. Destruí-la. Fazer dela cacos desorganizados pelo chão. Quero ouvir o estilhaçar de copos e pratos e taças apenas para não ficarem ali - onde sempre estiveram - desordenados.
Mudou tudo.
A fotografia. Quão errada esta fotografia onde sorris e eu também. Onde estás vivo e eu também. Mudou a fotografia. O abraço. Errado como se também ele pudesse ser um pedaço desalinhado da casa. Ali permanecemos - como ontem e há um ano - abraçados e a sorrir. Quero agarrar a fotografia. Rasgá-la ao meio. Quebrar o abraço. Riscar os sorrisos. Desenhar lágrimas no meu rosto iludido e inocente.
Mudou tudo. Sinto raiva da casa que está igual. Mudou tudo. Não aqui. Dentro de mim. Dentro de mim que te amava. Que te amo. Que te vi morrer. Que voltei para casa. A minha casa. E descobri que ela permanecia igual, como se não sentisse a tua falta.
Mudou tudo. Mas entrar em casa é familiar, doce, bom. E dou por mim a querer chamar o teu nome e a ouvir os silêncios da ausência de resposta.
Morreste. Mudou tudo. Não aqui. Dentro de mim. E a casa permanece igual, sem que nada faça sentido.



Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

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3 comentários:

candida disse...

Gostei muito tenho de voltar com mais calma para ler os outros posts !

Manuel S. Bessa disse...

Como é verdade que num momento tudo muda e perdes o chão, mas também é verdade que a força que temos cá dentro faz-nos agitar as águas e voltar a viver...e ser feli

Jennyfer Aguillar disse...

A perda nos deixa sem sentido,nos faz pensar em mudar tudo,em transmitir,de alguma forma,a tristeza que emana de nós.
Esse texto é lindo de uma maneira tão poética que me arrancou lágrimas :)
Beijinhos Jenny ^.^