terça-feira, 12 de maio de 2026

Mundo cão

Imagem do Pixabay

 

“Ah, este mundo a que alguns chamaram cão. Os cães, decerto, lhe chamariam homem.”

José Saramago

na crónica «C’est la rose...» em “Deste Mundo e do Outro”

 

Caiu uma bomba. Mas eu acordei e estava viva. A bomba deve ter sido noutro corpo. Então, levantei-me, escovei os dentes, agarrei o pão que o diabo amassou na véspera, duro como o dia que precedeu o dia duro que se aproxima.

Saí para render. Para me render. Porque é preciso renda que sustente o febril e fabril capital. A capital ia nos passos escravos da era da escravatura abolida. Na ida, a bola ocupava as conversas de almas mudas, às quais faltava o tempo e o vocabulário para outras sentenças, sentenciados que estavam à rotina das grades abertas da rua. Mais tarde, outras grades. Quando pesassem as sentenças. As da cerveja, no café da rua onde se junta quem se cansou do cansaço, debaixo dos rumores de uma caixa retangular onde cabe o mundo dos outros. E pobres outros! Esses outros nos quais caiu a bomba e que não se ergueram de manhã porque estavam mortos. Pobres mais pobres que nós. E talvez, afinal, a nossa pobreza nem seja tão má à luz desta. Talvez, afinal, haja razão para fazer a festa.

 

Esmago as mãos na pressão das contas que caem no correio eletrónico. Melhor do que a cadeira elétrica, suponho. Mas depois penso... pelo menos estaria sentada. Pelo menos dar-me-iam algo em que cerrar os dentes e deixar-me-iam gritar para dentro. Ninguém se ofenderia por me ouvir dizer que tenho medo do dia. No dia da nossa morte estamos autorizados a ter medo. Sobra-nos isso. Sermos reduzidos a poeira para, em poeira, descobrirmos que nunca fomos outra coisa. Uma espécie de pó de talco que alguns puseram nas mãos para não escorregarem no sangue de quem os serve enquanto escalam os seus muitos milhões de mortos, na montanha do alegado sucesso.

 

Somos as pedras e as perdas e o pó. E este é o mundo. Aceitemos este caminho, que nunca houve outro, dizem vozes anciãs dos cegos. Todos os velhos que trazem as velhas palavras são cegos. Quem vê, morre. Quem vê, deixa-se morrer. Quem vê, quer morrer. E, se não morre, nem se deixa morrer e, por loucura, morrer não quer... alguém o mata. Toda a sabedoria da aceitação cabe aos cegos.

 

Um dia, nave que nos leve será salvação e terá tudo valido a pena. Os olhos que treinam para a cegueira olham o céu e questionam, por fim, alguma coisa. Preocupam-se, por fim, com alguma coisa. Haverá vida noutro lugar deste universo?

 

Eu levo o universo. Um verso. Só um. Um verso de uma palavra. Dor.

 

No fim, a bomba atinge-me. Era inevitável...

 

Tanta gente preocupada, a perguntar-se se há vida noutros planetas. E eu, aqui, preocupada, a perguntar-me se há vida neste.

 

É assim que morro, me deixo morrer ou me matam... falhei na arte de aprender a ser cega.


 Marina Ferraz



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