Durante anos e anos, o sonho. Peço que não me corrijam. Não era um pesadelo. Era um sonho. Se acaso a semântica vos importa, se quiserem ser puristas com as coisas da linguagem, permitam-me corrigir. Durante anos e anos, os sonhos. Muitos. Todos iguais na essência e, só por isso, para mim, singular.
O sonho era simples. 36. O sonho era um número de anos. O sonho era um número de velas. O sonho era uma profecia. 36. O sonho mostrava-me adulta, mesmo quando era criança. Adulta, mesmo quando era adolescente. Adulta, ainda há uns dias, agora que o sou. Uma noite aqui, outra além. Por vezes, dia sim, dia não. Por vezes, mês sim, mês não. O sonho pegava nesse eu de 36 anos e confrontava-o com uma única coisa. A morte.
Morri muitas vezes, nesses sonhos. Primeiro, acordava. Depois, deixei de acordar. Algures, tomei a consciência de que sonhava e brincava com as malhas do sonho, jogando com ele, sem conhecer os limites da vida e da morte, do dia e da noite. Conheci muitas balas, muitos precipícios, muitas cordas de forca. Acidentei-me dentro do meu carro e dos carros e motas de outros. Senti na pele quedas de avião e derrocadas e descarrilamentos. Sorvi venenos que me eram dados e cortes fundos em veias fundamentais, rasgadas por outros. Esses sonhos, que para mim são apenas um sonho, tinham em comum apenas duas coisas. Nunca era eu a autora da minha morte. Eu morria sempre.
Com os anos, confesso, comecei a fazer subtrações em vez de somas no momento de soprar as velas. Faltam dez anos. Faltam cinco. No ano passado... falta um.
Completo hoje um ano de convivência com a morte. Todos os dias, durante um ano, esperei o dia que me fosse o derradeiro, trazendo dentro uma pacífica aceitação que, apesar de tudo, vinha agarrada a pedrinhas de saudade. Hoje, faço 37 anos. E este ano, o que hoje termina, foi o ano em que morri.
Há muitas formas de se morrer. A minha, ao longo deste caminho que me levou dos 36 aos 37, não gerou convites para funerais, nem pediu lágrimas a ninguém. Ela levou-me a dizer coisas que talvez não tivesse dito e a fazer coisas que talvez não tivesse feito, pelo sim, pelo não. Neste caminho, tive muito orgulho de mim, mas desiludi-me muitas vezes com o mundo. Este trajeto matou-me alguns objetivos e muita da esperança que insistia em cravar dedos na alma. Matou-me pedacinhos de alma. Matou-me certezas infinitas e fez-me ponderar soluções que, anos antes, seriam impensáveis. Também me morreu, por aqui, a vontade de fazer o esforço. De ir, de estar, de falar, de correr atrás de coisas que me cansam, me reduzem ou me ignoram. Morreu um bocadinho a poesia que eu era, mas de uma maneira boa. Eu sempre fui mais prosa... e também morri um pouco para poder ser um mar de eus-personagem, justamente por isso. Diria que me morreu a fé no mundo e na paz... porém, talvez não tenha sido este ano. Penso que já não tinha essa fé, cadáver pesado e triste. Mas foi este ano que larguei esse defunto, para seguir mais leve. O mundo está como está. Mas eu não tenho de ser o mundo.
Sopro estas 37 velas. Depois do ano em que morri. Faço, em vez de um pedido, um elogio fúnebre, porque só eu sei o que passei. Eu, a gata, as minhas quatro paredes e, talvez, a minha mãe.
O que digo a esse fumo que se eleva? Isto: Tinhas razão. Eu morri com 36 anos. Até aqui foi vida (ou um sucedâneo qualquer). O que vier, agora, é lucro...
Tão certo, que até a AT foi informada. Parece que este ano recebo qualquer coisita de IRS.
Como escrevi naquele velhinho teste de História, num lapso que afinal parece fiel à verdade, enterrem-se os feridos e curem-se os mortos.
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