segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Ampulheta

Era uma palavra e uma provocação. Mas, um segundo depois, ele sorriu e encolheu os ombros, como se não tivesse dito nada.
Eu tinha as mãos dadas com o tempo. Olhei para ele e ele olhou para mim. Depois olhámos os dois para aquele rapaz que, tão obviamente não fazia ideia do que eu sentia.
Foi então que o tempo tornou a olhar para mim e compreendeu que estava a mais. Não havia tempo para o tempo. Não havia tempo para nada além do meu amor, do meu desejo, correndo sob a pele em chamas, implorando por mais um toque.
Já estávamos a sós quando ele me disse para eu não olhar para ele com uma expressão tão séria. Mas eu não fiz caso das suas palavras. Deixei a dúvida cair no chão juntamente com a razão e a minha roupa e a roupa dele.
Perdi-me nos braços da perfeição. E, naquele momento, não era como se ele não me tivesse dito nada. Eu tinha-o. Ele tinha-me. Juntos tínhamos parado o tempo. Se continuássemos juntos talvez nunca deixássemos de ser jovens.
Eu disse “obrigada” e beijei-lhe o rosto com carinho na voz. Ele sorriu-me mas não disse nada. E eu quis morrer ali porque era fácil. Porque o tempo não fazia sentido e a recordação acabaria por desvanecer. Quando acordasse estaria só. Totalmente só. E os ponteiros do relógio tornariam a rodar, lembrando-me que a vida corre e ele não está. Lembrando-me que as recordações são tudo o que restou de nós.

Marina Ferraz

3 comentários:

aorpheu disse...

Dá sempre para virar a ampulheta ao contrário e começar de novo a contar o tempo. Há sempre uma vela, um raiozinho de sol...

Fica o link de uma música para ouvir com atenção!

http://www.youtube.com/watch?v=K9h7fRY-Jcc

Jessica A. disse...

Muito lindo o texto amei

Jessica disse...

Muito lindo