quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A terceira vela

Era uma das coisas que ela odiava. Não ser original. Não fazer as coisas de maneira diferente dos outros, ainda que, para isso, tivesse de errar.
Talvez ela não se importasse com o que os outros pudessem pensar. Ou, na verdade, talvez ela se importasse, mas estivesse habituada a isso e já nada a pudesse atingir. Talvez tivesse apenas caído demasiadas vezes e soubesse que conseguia levantar-se, ainda que demorasse um pouco.
Com um sorriso no rosto, ela reinventou a mentira mais comum dos Homens e disse que estava bem quando não estava. As pessoas engoliram a mentira porque, de alguma forma, era mais fácil acreditar nela.
Cansada dos seus próprios erros, envolveu-se em clichés dos quais saiu ainda mais magoada. Mas ela não era uma pessoa vulgar, ainda que cometesse os mais vulgares erros. Ela era uma pessoa que acreditava que o amor fica no lugar onde começa. Era a pessoa que queria provar que ela própria estava errada. A pessoa que estava disposta a tentar amar de novo, ainda que tivesse de se destruir para isso.
Talvez por esse motivo, os seus erros tinham um sentido diferente à medida que os cometia. Nenhum deles deixava de ser original. Nenhum deles a tornava igual a ninguém. Cada toque, cada beijo, casa passo que dava, isento de sentimentos... Eram erros infernais e todos a faziam ser o pior que podia. Todos eles a tornavam um monstro. Todos eles lhe pertenciam.
Nesse dia, ela soprou as velas. Não porque fosse o seu aniversário mas, simplesmente, porque era uma data especial para ela. Soprou as velas e pediu um desejo. O seu desejo esteve longe de tudo o que as pessoas pudessem pensar. Não pediu nada para si.
Quando apagou as velas, a escuridão abateu-se. Não havia outra fonte de luz. Mas ela não estava perdida porque aprendera a viver nas trevas.
Estava sozinha. Não era seu costume mas, naquele momento, sentia-se verdadeiramente só. Reacendeu as velas e apagou-as de novo. Depois acendeu-as, uma vez mais, apenas para as tornar a apagar.
Cansada de tentar encontrar esperança no fumo - o mesmo fumo que a rodeava há muitos anos - pegou no telemóvel. Era um cliché, sim! Mas ela não se importou! Escreveu uma mensagem a dizer que, depois de tudo, o amor permanecia nas suas veias, correndo pelo seu corpo.
Nunca enviou essa mensagem, mas compreendeu finalmente que se enredara demasiado nos seus próprios conceitos de amor, liberdade e alegria… que procurara, de maneiras extremas, algo que encontrara há muito tempo atrás.
Compreendeu tudo. Como se a chama que acabara de apagar se acendesse na sua alma e lhe iluminasse a mente. Ainda o amava. A ele. Ainda o amava como no primeiro dia em que o vira. Amá-lo-ia para sempre. E não era cliché. Era simplesmente verdade. Uma verdade que podia permanecer tanto tempo como a sua promessa. Algo que podia e iria durar “Sempre e Para Sempre”©.

Marina Ferraz

1 comentário:

José Raposo disse...

É por isto que eu digo que gosto de prosa...