terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Sopro da Saudade

- Foi o modo como olhaste para mim, naquele primeiro dia! – admitiu ela, baixando o olhar. Os seus olhos de avelã pareciam subitamente cintilar como as estrelas. – Foi a maneira como seguraste a minha mão e a certeza infinita com que me carregaste nos teus braços. Foi aí que eu soube!
Ele sorria. Tinha o universo nos braços e não havia nada que não pudesse oferecer-lhe. Podia dar-lhe a lua, podia dar-lhe as estrelas, podia dar-lhe qualquer coisa que ela quisesse. Ela não lhe ia dizer que não. Jamais o iria abandonar.
- Foi aí que eu soube que não bastavam as palavras bonitas, que não bastavam os presentes e os gestos carinhosos. Foi aí que eu soube que a tua perfeição jamais seria suficiente para mim.
O choque do seu rosto foi evidente quando as palavras dela o atingiram, fortes demais para a sua fragilidade. Ainda assim, ele não proferiu palavra alguma. Era mais um homem cobarde disfarçando a cobardia numa capa de silêncio.
- Eu queria amar-te. A sério que queria! Queria acordar e adormecer a pensar em ti. Queria pensar em construir todo um futuro a teu lado. Mas eu amo mais o incerto e o errado, amo mais a dúvida. Amo mais os estalos que a vida me dá para me atirar ao chão e a minha força para me levantar. Amo mais poder ser senhora dos meus próprios passos, cair em abismos, amar e não ser amada de volta, mas amar de facto!
O Destino olhou para a Saudade sem compreender. Como podia ela deixá-lo assim? Como podia ela escolher ser, não só saudade, mas também solidão?
A Saudade corou e ergueu de novo os olhos, pousando a mão na face do Destino.
- Segui-te e fui tua mas não te amei. Não te amei porque fugi de ti e descobri as trevas. As trevas são um lugar triste para viver mas, quando surge uma luz, por mais pequena que seja, ela ilumina-nos. Não só por fora, mas também por dentro. Aquece a alma e não só o corpo.
Ele não podia aceitar. Por isso, foi embora e a Saudade ficou finalmente sozinha. Fechou os olhos, sorrindo, e atirou-se para o abismo. Pertencia a um mundo muito diferente do dele! Não queria o universo. Queria apenas um pouco de paz.
Então, sentindo a liberdade invadi-la, a Saudade proferiu baixinho um nome do seu passado, vislumbrando, na escuridão, o rosto eternamente jovem da Esperança. E a paz veio nesse sopro e esse sopro mudou o mundo e o mundo chorou. Não chorou a Saudade ou o Destino, nem mesmo a separação dos dois. Chorou a recordação por ser o derradeiro raio de luz no meio de uma tempestade chamada vida.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

3 comentários:

aorpheu disse...

Agora percevo porque é a Saudade tão sozinha e o Destino tão amargo. É por isto que as relações são assustadoras...

E o triângulo amoroso completa-se com a Esperança. Que vida esta que até nos conceitos faz um amor em vértices...

Um texto magnífico. Como sempre.

Um abraço apertadinho

aorpheu disse...

Meu Deus, o meu teclado está contra mim. Era percebo que queria escrever.

Mariana Vital Cruz disse...

tão lindo meu anjo :)

está.. perfeito... a verdade ressoa nas tuas palavras :) parabéns minha fadinha*