domingo, 7 de fevereiro de 2010

O estranho

O estranho atravessou a rua. Tinha um olhar vazio como o céu numa noite sem lua e os lábios mantinham uma linha severa que recusava um sorriso a todos aqueles com quem se cruzava.
Ergui o olhar para ele e fiquei a vê-lo atravessar. De alguma forma, os seus passos decididos condiziam com o olhar. Era como se não fosse mais do que um corpo sem alma, deambulando pelas ruas, correndo contra o tempo em busca de algo que jamais podia encontrar.
Senti o meu corpo reagir e movi-me com estranheza quando me apercebi que ele vinha na minha direcção. Havia algo de familiar naqueles olhos, naquele modo de andar, naquela eterna sensação de pressa. Mas era como se o tempo tivesse apagado a minha memória. Como se tivesse passado muito, muito tempo e já nada fizesse sentido.
Quando chegou ao pé de mim e se sentou à minha frente, sem pedir licença, notei que era bonito. Bonito demais para só o notasse agora. E assustava-me o modo como olhava para mim, como se eu não estivesse ali e aquilo fosse apenas um engano.
Estendeu a mão e tocou-me no rosto. Tentei recuar mas, por algum motivo, por mais que quisesse fazê-lo, não conseguia. Era como se aquele estranho fizesse parte do que eu sempre tinha sido.
Então, fechei os olhos e permiti que toda a paz e toda a alegria do mundo me assombrassem, deixei que aquele toque me fizesse sonhar com um futuro que não estava certa que pudesse existir.
Abri os olhos e notei que o olhar do estranho continuava vazio. Vazio como estava quando atravessou a estrada, quase a correr. Não havia alma naqueles olhos. Nem brilho. Nem coisa alguma. Simplesmente o vazio. …
O estranho levantou-se e virou costas, para partir. Travei-o. Precisava de saber o seu nome. Ele olhou para mim e encolheu os ombros, como se me tivesse ouvido fazer aquela pergunta em voz alta.
- No momento em que desaparecer, saberás a resposta… - murmurou. E depois correu. Correu tão depressa que, num segundo, não pude avistá-lo. Mas, de uma forma incompreensível, ficou comigo para sempre. E, todos os dias, quando olho ao espelho, vejo os seus olhos nos meus olhos. Não há alma, ou alegria, ou coisa alguma… Mais uma vez, só o vazio…
Conto a todos a mesma história! Um estranho atravessou a rua e tocou-me no rosto, deixou-me sonhar. Depois, virou costas e abandonou-me na maior solidão. Só quando partiu é que eu soube que ele era o amor… Era o amor a atravessar a rua e a tocar-me no rosto, a deixar-me sonhar e a mostrar-me que a distância não é o suficiente para apagar a imagem de um estranho.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

1 comentário:

Lídia disse...

Menina, já to disse e repito-o, pois é necessário, e ainda ninguém comentou este post (1ª ! ) xD
Adiante... esse remate final só remete para a tua educação católica. Relembra a passagem bíblica da Ressurreição, na qual Cristo aparece aos apóstolos e estes não O reconhecem. Só o percebem depois...
É nisto que dá as pessoas armarem-se em catequistas enquanto estão no 12º.
Beijinhos