sexta-feira, 12 de março de 2010

Carta

Hoje caminhei sobre os destroços da cidade até que os meus pés sangrassem. Procurei-te em cada esquina, em cada migalha de destruição. Não vi qualquer sinal de vida. Supus, por isso, que talvez já não estivesses vivo. Antes de o dizer em voz alta, o vento tapou-me a boca com milhares de mãos e obrigou-me a seguir pelo deserto.
Como se tu pudesses ter fugido… como se pudesses ter virado costas ao nosso amor na primeira batalha desta guerra sem fim.
Caminhei pelo deserto, consciente de que era mais simples acreditar na tua traição do que na tua morte. Como poderias ter morrido, meu querido, se ainda tenho no peito um coração a bater e ele é teu?
Caminhei pelo deserto durante dias. Até que a sede e o cansaço me venceram e me deixei dormir junto a um morro de pedra. Estava frio. Lembro-me que estava frio e que as minhas lágrimas pareciam congelar naquela noite sem lua.
Não te encontrava e não entendia porquê. Estavas tão vivo dentro de mim. Estavas tão acordado na minha memória.
Os teus olhos, castanhos e doces, suaves e intensos, continuavam a fitar os meus olhos fechados, numa recordação presente. E os teus braços envolviam-me para que eu não sentisse frio. Eu sabia, contra tudo o resto, que estavas vivo. E podiam dizer-me que era loucura. Não importava. Era a minha verdade, ainda que fosse mentira para todas as outras pessoas.
Acordei com a brisa nos meus cabelos. Sentia-me tão cansada como antes. Como se nunca tivesse dormido. Agarrei um punhado de areia e apertei-o com força, tomando força para me levantar.
E tornei a caminhar, como se pudesse percorrer o mundo inteiro com os pés feridos, à tua procura.
Por fim, regressei à nossa cidade destruída. Outra vez. E tu eras um nome numa pedra. Numa pedra que te lembrava como se não estivesses vivo. Como se não fosses aparecer para me perguntares onde tinha estado. Um nome e uma data numa pedra. Apeteceu-me rir da ironia. Tinhas sido tanto. Como podias ser apenas um nome?
Puseram-me a mão no ombro, para me confortarem. Como se ter acordado fosse um motivo para terem pena de mim. Eu limitei-me a afastar-me daquele toque que não era teu. Não podia aceitar o apoio de ninguém. Afinal, eu sei que o teu coração não parou. Deste-mo e eu guardei-o sempre dentro de mim. Tratei-o com cuidado. Fi-lo sobreviver à guerra, à dor e ao deserto.
Fui eu que perdi o coração. É o meu coração que reside debaixo dessa pedra com o teu nome. Foi ele que parou de bater no teu último suspiro.

Marina Ferraz
*imagem retirada da Internet

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