domingo, 13 de fevereiro de 2011

Louca

O grito - Edvard Munch

louca. serás sempre louca, onde quer que vás. não há um lugar onde pessoas sãs possam dizer que és outra coisa.
louca. essa noção de diferença incompreendida que se esbate e escorre nos olhos dos outros como um véu de demência, de loucura, de estupidez até.
quem somos, além de loucos a correr em direcções cruzadas, embatendo contra tudo, contra todos, os que nos tocam no caminho? louca. louca como foram todos os que fizeram a diferença.
afinal, não é loucura viver fechado. não é loucura correr para consumir e desperdiçar banalidades. não é loucura destruir o mundo em que vivemos, sem qualquer preocupação. não é loucura a guerra. não é loucura a morte fortuita de tantos quantos "não interessam". não é loucura porque são todos igualmente loucos e ser louco tornou-se normal.
louca. sê sempre louca, onde quer que vás. fala com o ar, com o fogo, com a terra e com a água. invoca o espírito daqueles que, como tu, foram loucos no seu tempo. sê sempre louca. louca de acreditares na felicidade, nos contos de fadas, num mundo melhor.
vão chamar-te muitas coisas. louca. crente. criança. porque todos eles se esqueceram. mas nós não.
louca. nunca serás como eles. nunca te ajoelharás aos mesmos deuses, à mesma ironia de não haver deuses, à sociedade que corre eternamente rumo ao fim da sanidade. sê sempre louca! louca na tua maneira de o ser. loucamente envolvida pelo que realmente importa. sê louca como és e, talvez um dia, louca, crente, criança, a nossa loucura possa superar a de todos eles e o mundo se torne um lugar melhor para viver.

Marina Ferraz

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