segunda-feira, 14 de março de 2011

Ao abandono...

A casa estava fria, com as paredes nuas e as divisões desocupadas e as janelas desengonçadas, pendendo. Crescia relva por entre os azulejos do chão e subia hera pela fachada triste e podre. Ecoavam os passos dos fantasmas pelos corredores. O resto era silêncio.
Havia nos quartos a memória de mil paixões. Algumas proibidas, outras acabadas, outras simplesmente feitas de compromisso e conveniência. As salas ainda se lembravam dos pares, dos vestidos cerimoniosos, da música vibrante que ecoava pela mansão nos dias de festa. Todos os dias.
Fechando os olhos, ainda cheirava a alfazema e a tomilho e a canela e cravo. Ainda cheirava a pessoas e a histórias de nobres e criados, de serviço e fidalguia. Relembrando, ainda cheirava a vida. Mas tudo o que havia agora, era o aroma pútrido a mofo e a pó. A saudade.
E, passando na rua, o velho sábio ainda esboça o sorriso, enquanto segura o neto ao colo e lhe diz que aquele lugar foi uma casa senhorial que avançava pelas quintas, pelas capelas, pelas vinhas, pelos prados e ia até ao fim da aldeia. E a criança ouve, sorrindo e imaginando o lugar que aquele sitio já não é.
Mas depois passam, a casa fica, caindo como se não tivesse história. E já ninguém pensa nela, já ninguém quer viver nela...
Com as pessoas também é assim. Não importa quem foram nem o alcançaram nessa dimensão maravilhosa chamada "passado". Não interessa a importância que tiveram ou se um dia suportaram tanto quanto existe, em universos de felicidade. Não importa as histórias que têm para contar. Quando ficam vazias e doentes, a vibrar de solidão e a viver de recordações, as pessoas olham, comentam com saudosismo e seguem o seu caminho... porque também já ninguém quer viver nelas...

Marina Ferraz

*imagem retirada da Internet

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